Crítica


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Sinopse

A história de Jesus Cristo narrada com a perspectiva bíblica. Baseada nos quatro evangelhos, é retratada sua vida pública, seus milagres, a conspiração em torno de sua existência, sua morte e ressurreição.

Crítica

Provavelmente, nenhuma história foi tão contada no mundo ocidental quanto a Paixão de Cristo. Portanto, é missão das mais complicadas oferecer novidades à trajetória de Jesus de Nazaré, autoproclamado filho de Deus, autor de milagres, perseguido até sua crucificação dramática e posterior ressurreição, isso de acordo com os preceitos cristãos. Jesus: A Esperança começa com a entrada de Cristo (Luiz A. Vechiato) em Jerusalém, na passagem conhecida, dentro da liturgia romana, como Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Nessa primeira cena já fica evidente que estamos diante de uma realização amadora, com parcos recursos, cujo fundamento essencialmente cinematográfico é precário. O primeiro terço do filme é dedicado única e exclusivamente a apresentar os feitos extraordinários do Messias. Ele cura um cego, permite que um paralítico ande novamente e restitui a saúde de um leproso. O diretor Semi Salomão ressalta o caráter episódico ao não investir na interligação dos eventos.

Jesus: A Esperança é levado a cabo pelo grupo teatral Mãe do Céu, de Arapongas, interior do Paraná. Uma das maiores falhas do filme é justamente o total engessamento do elenco.  Luiz A. Vechiato, intérprete do protagonista, se limita, geralmente, a olhar para o céu enquanto reproduz máximas bíblicas, não oferecendo qualquer nuance para um personagem complexo como o seu. Exemplo dessa inépcia gritante é a ausência de reconhecível compaixão na interação do nazareno com os enfermos por ele reabilitados durante a caminhada. A câmera de Salomão denota um amadorismo patente, assim como os demais elementos narrativos, vide a trilha sonora carente de expressividade. A indignação dos fariseus e sumo-sacerdotes ganha ares risíveis em virtude da forma como as atores demonstram o seu incômodo diante da figura do profeta. Aliás, à medida que Jesus transita, eles constantemente aparecem ao fundo, balançando a cabeça, desaprovando pregações, como num programa de humor televisivo.

Com a entrada de Pilatos (Aldo Lovato) em cena, sobressaem as debilidades que tangem à cenografia. Os palácios são claramente falsos, algo potencializado pela maneira como o realizador tenta enfatizar uma grandiosidade inexistente. Jesus: A Esperança não possui tônus dramático porque é vitimado por uma fragilidade praticamente generalizada. Ao invés de compensar as restrições com criatividade, Salomão destaca as irregularidades ao lançar sobre elas (d)efeitos especiais dignos de esforços caseiros. Outro componente que depõe contra a fruição do longa-metragem é a dublagem trôpega, processo em meio ao qual se extirpam os ruídos, o que prejudica inteiramente a ambiência. Nessa seara, em consonância com a inclinação por realçar os erros, a sonoridade criada na pós-produção é absolutamente problemática, pois artificial, o que reforça a inverossimilhança. Falta, nesse sentido, uma imbricação minimamente funcional entre as imagens e os sons.

Maria (Débora Melo) é relegada à figuração nesta versão da Paixão de Cristo, se restringindo a choramingar – sem convencer – em situações pontuais. De modo geral, os atores são desprovidos de carisma. Seus desempenhos burocráticos, sem alma, são sublinhados pela condução errática, para dizer o mínimo, de Semi Salomão. A inconsistência que atravessa inapelavelmente o todo é fruto de uma concepção ingênua, no máximo bem intencionada. Jesus: A Esperança aposta no primado da crença. Partindo da esfera religiosa, o filme busca evitar, exatamente, a descrença do espectador, também quanto à ineficiência da encenação, contando com a possível vista grossa para obter resultados. O desenvolvimento narrativo anódino, as capengas contextualizações política e social e o desempenho pífio dos atores tornam penosa a sessão. Sem acrescentar algo à disseminada história de Jesus Cristo, a produção se justifica (bem pouco) somente pelo caráter curioso.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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