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Sinopse
Isso Ainda Está de Pé? acompanha Alex e Tess Novak, um casal que decide encerrar o casamento de forma amigável enquanto enfrenta a crise da meia-idade e os desafios da coparentalidade. No processo de redefinir suas identidades, Tess busca novos caminhos profissionais após anos dedicada à família, enquanto Alex mergulha no cenário do stand-up em Nova York, transformando o palco em espaço de confissão e reinvenção. Comédia/Drama.
Crítica
O título nacional, talvez “quinta série” demais para os padrões locais, poderia ser melhor traduzido como “isso ainda vale?” ou numa adaptação mais livre, “a chama ainda está acesa?”. Sim, pois Isso ainda está de pé? se refere àquela pergunta que todo mundo que já passou por algum relacionamento amoroso de longa duração em um momento ou outro perguntou, tanto a si mesmo, quanto ao parceiro ou parceira de jornada. É aquela provocação que implica num “será que tudo aquilo que nos prometemos tanto tempo atrás ainda é válido?”, ou de tanto repetir para nós mesmos, tal qual um mantra, já nem conseguimos mais discernir qual é o sentimento válido e o que permanece mais como uma ideia, algo que por anos até existiu de fato, mas não mais se manifesta como presente. O ponto de partida, portanto, é universal. E os caminhos percorridos durante esse período de reflexão, autoconhecimento e entendimento pessoal podem parecer privados a uma fatia do público, mas não estranho aos demais. E assim Bradley Cooper consegue entregar o menos ambicioso, e talvez por isso mesmo, mais bem acabado de todos os seus projetos como realizador.

Indicado nada menos do que doze vezes ao Oscar, Cooper concorreu cinco vezes como intérprete, cinco como produtor e duas como roteirista – nenhuma, portanto, como diretor. Mesmo assim, seus dois projetos iniciais – Nasce uma Estrela (2018) e Maestro (2023) – eram tão ostensivos e exultantes de seus próprios méritos que chega a ser curioso perceber como a Academia, que tanto lhe aplaudiu por seus inegáveis talentos, insistia em recusar esse específico reconhecimento. Isso ainda está de pé? não obteve resultado melhor, porém com uma importante diferença: não se apresenta como se tal feito almejasse. A discrição de sua singela proposta cai bem ao drama especulado, um olhar íntimo sobre os meandros de um casal em crise não por traição, questões financeiras ou outros elementos externos, mas pelo simples fato de terem sido levados a duvidar da permanência do amor. Teria o sentimento que os uniu há mais de duas décadas simplesmente acabado? E o que fazer a partir dessa constatação?
Grande parte do acerto de Cooper está na decisão de se retirar do centro das atenções. Ao contrário dos seus longas anteriores, nos quais também aparecia como protagonista, agora ele cede esse espaço à Will Arnett, colega de menor profundidade dramática, mas com grande credibilidade no discurso que dessa vez abraça. Conhecido pela sua desenvoltura como comediante, indicado ao Emmy por séries como Arrested Development (2003-2009) e 30 Rock (2007-2013), ele surge em cena como Alex Novak, o marido de mais de vinte anos de Tess (Laura Dern, transbordando carisma) que, após uma conversa franca dos dois, decide sair de casa e alugar um apartamento para si. Aos poucos revelam a novidade aos filhos, aos pais, ao amigos mais próximos. E nesse processo, passam também a olhar para si mesmos com maior atenção: ela volta a praticar o esporte que por anos foi sua razão de viver, enquanto ele descobre uma nova paixão: a comédia stand up.
Baseado na vida real de John Bishop, um comediante de Liverpool, Isso ainda está de pé? virou cinema graças ao faro apurado de Arnett. Foi durante um passeio por um canal em Amsterdã, quando conheceu Bishop e ouviu dele sua história de vida, que o astro de Hollywood decidiu transformar esse relato em filme. Como Cooper entrou na história é mais nebuloso, mas o certo é que tê-los em posições distintas, ainda que juntos no roteiro e na produção do projeto, fez bem ao conjunto. Novak não é uma pessoa má, mas também está longe de saber ao certo o que quer para si. As mágoas e frustrações que se acumularam entre ele e a ex-esposa transbordaram, mas seria certo dizer que teriam afogado tudo o que já chegaram a sentir um pelo outro? Arnett brilha nos momentos de palco, quando precisa enfrentar o constrangimento público – do personagem, em cena, e junto à audiência, no lado de cá da tela – mas também empresta verossimilhança nos diálogos com a mulher pela qual ainda sente algo – o que, exatamente, é que o precisa decifrar – e com os filhos, com os pais, com companheiros que já passaram por essas e outras tempestades similares e, principalmente, com os novos colegas recém adquiridos.

O stand up comedy funciona mais como uma alegoria, e menos como um elemento transformador. Afinal, Novak não quer grandes mudanças e nem sonha com conquistas impossíveis. O que busca é se reconectar consigo e com os seus. Estar perdido em determinada fase da vida faz parte do ser humano, e manter a cabeça erguida para atravessar pelo processo é tudo o que precisa ser feito, sempre em frente, aprendendo pelo caminho e revendo conceitos, experiências e emoções. Parece simples, mas capaz de alterar mundos. Exatamente o que Bradley Cooper – também visto em cena como um dos melhores amigos do casal – se esforça em alcançar com Isso ainda está de pé?. Com diálogos bem desenhados, um elenco entrosado e uma condução ciente que por vezes a melhor condução consiste em simplesmente abrir espaço para os outros, o todo surpreende. Eis, enfim, o que acontece, não uma história particularmente original, mas tão passível de identificação que é quase impossível por ela não se deixar levar e, com isso, também embarcar nas dúvidas e reflexões propostas.
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