Crítica

O Rafinha Bastos é um cara legal. É um profissional competente, que já passou por várias mídias – internet, televisão, cinema, teatro – e sempre acaba obtendo repercussão pelo que faz. A questão, no entanto, é que nem sempre esse retorno vem pelo que ele faz de melhor. Às vezes vem por algumas polêmicas gratuitas, atitudes meio sem sentido. Parece, que o que lhe importa em última instância, é causar, é o “fale bem ou fale mal, desde que fale de mim”. É a quantidade de likes, de curtidas e de compartilhamentos, afinal. E ele sabe bem disso, pois foi um dos pioneiros do desenvolvimento da comunicação online no Brasil. É por essas e outras que ele parecia ser o cara certo para desenvolver o projeto de um longa chamado Internet: O Filme, um produto que soubesse fazer uso dessa linguagem tão específica e a levasse para fora de seu gueto, ampliando esse discurso e atingindo novos públicos. Uma ideia muito bonita em teoria, mas que infelizmente não chega nem perto de atingir esse potencial com o que é visto em tela.

Seria injusto comparar o humor visto em Internet: O Filme com o das comédias televisivas que tanto se propagaram desde a virada do século no cinema nacional, pois até essas já evoluíram. Numa realidade como a atual, em que o programa Zorra, da Rede Globo, é indicado ao Emmy Internacional, e produções arrojadas e inventivas como TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva (2017) chegam às telas, o que este longa escrito, produzido e estrelado por Rafinha Bastos apresenta chega a ser vergonhoso e constrangedor. O que fica claro, mais uma vez, é sua busca incessante e desmedida pela quantidade. Tanto que sua frase de divulgação no cartaz é “25 loucos no mesmo evento”. Mais uma vez, quantidade como se fosse sinônimo de qualidade. Quando foi mesmo que mais do mesmo fez alguma diferença?

Uma preocupação que pode ser comum aos espectadores de Internet: O Filme é “se não conheço esse pessoal, será que irei achar graça?”. O receio é até justificado em situações similares, mas aqui este temor não terá o menor fundamento pois, como logo ficará explícito, eles são todos iguais. Estamos diante de um grupo de adolescentes, e como eles mesmo afirmam, a maioria sem um propósito firme na vida. Querem aparecer, se tornarem conhecidos, a fama pela fama, ainda que esta esteja restrita a um círculo bastante limitado. E assim como qualquer jovem nessa faixa etária, o que fazem não tem muito impacto: são os amigos que apostam se um deles consegue beijar a menina mais gordinha, o casal preocupado com o cãozinho de estimação, as amigas em férias que não se acertam, o casal que começou a namorar agora e está preocupado com a exposição de seus sentimentos. A grande diferença, no entanto, é que fazem tudo isso diante de uma câmera de celular.

Aliás, este é um detalhe que revela uma grava falta de foco do projeto: ao invés de Internet: O Filme, porque não chamaram de YouTube: O Filme? Bom, provavelmente por causa dos direitos autorais, mas não se engane: este não é um olhar mais detalhado sobre aqueles que vivem e se comunicam pela world wide web. Em cena, temos apenas os youtubers, e mesmo assim, é preciso um cuidado para não generalizar. Sim, pois há muita gente que fala e é ouvida através de vídeos repletos de conteúdo e informação. O que acontece, porém, é que talvez estes não sejam os mais acessados. Aqueles cujas repercussões de cada novo post estão nas alturas parecem que só conseguem se fazer entender com muitos gritos, edições picotadas e flagrantes midiáticos, porém vazios de relevância. Exatamente o tom adotado aqui.

E quem destoa disso tudo? Justamente Rafinha Bastos. De todas as subtramas apresentadas, eis o único protagonista com mais de 40 anos. Ele acha que consegue fazer rir justamente por brincar com sua própria persona de “cuzão”, como se autodefine. Sua presença deixa claro: quem vai rir por último é ele, afinal. Pois não está preocupado em fazer um bom filme. Sem roteiristas, com um diretor de primeira viagem e sem um único ator de renome no elenco inteiro, tudo que faz é brincar com as expectativas daqueles que esperam disso algo a mais do que aquilo que já tem de graça em casa, em seus computadores e smartphones. E se é pra ter exatamente a mesma coisa – ou ainda pior, pois estão desprovidos da liberdade do instantâneo que apenas a produção independente pode oferecer – por que pagar, não é mesmo?

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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