Crítica

O Brasil pode ser conhecido como um dos países mais ricos e plurais em cultura e diversidade. Porém, a comemoração acaba por aí. Afinal, é esta terra de tribos tão diferentes a responsável pelo maior número de assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo. Em seis anos, foram mais de 600 pessoas mortas por um simples fato: serem diferentes daquilo que os defensores da “tradicional família brasileira” consideram normal. No ano passado foram 144 casos. E só em janeiro de 2017, 23. Portanto, é um tema que deve, sim, ser discutido de todas as formas, inclusive no cinema. A Glória e a Graça pode até não tocar fundo nesses pontos mais graves, mas trata a transexualidade como algo que deveria ser consenso geral: a ideia de que todo e qualquer ser humano deve ser feliz, independente de sexo.

O filme é focado na relação entre as duas irmãs que dão título à obra. Graça (Sandra Coverloni) é mãe solteira, massoterapeuta que precisa cuidar de seus dois filhos, uma adolescente de 15 anos e um menor de oito. Uma dor de cabeça incessante revela que ela está com um aneurisma fatal. Sem pai nem mãe vivos ou os pais das crianças, que sumiram pelo mundo, ela recorre à ajuda do irmão, Luis Carlos, com quem não fala há 15 anos. Mas ele, agora, é ela. Glória (Carolina Ferraz), uma bem sucedida travesti, dona de um restaurante chique do Rio de Janeiro, que reluta em aceitar a ideia de criar seus sobrinhos. Especialmente, de voltar a estreitar laços com sua irmã após mais de uma década cheia de mágoas.

Sob a direção de Flávio Ramos Tambellini, a produção do filme demorou dez anos para ser bem sucedida. A maioria não queria saber de um filme estrelado por uma travesti. Emocionada com a personagem e a dura realidade do transgênero no Brasil e na própria arte de atuar, Carolina Ferraz comprou os direitos do script e ajudou o longa a tomar forma. Fez pesquisa de campo, colheu 62 depoimentos de transexuais entre São Paulo e Rio de Janeiro e até viveu como uma por um tempo para sentir na pele a dura realidade nas ruas. Colocou prótese bucal e fez aulas para engrossar a voz. O resultado pode ser conferido na tela. A atriz continua belíssima, mas longe do estereótipo glamourizado com que foi tão taxada por anos. Ao mesmo tempo, também foge ao máximo do clichê de travestis ao qual estamos tão acostumados. Não há traços de marginalização em Glória. Talvez no retrato com o mundo transexual é colocado de forma geral, aplicando uma dose de realismo na ficção, mas nunca em sua persona.

Ao transformar Glória numa mulher com M maiúsculo, forte, determinada e dona de si, Ferraz e Tambellini quebram o padrão, ainda que já tenham ouvido (e vão ouvir mais) a respeito de uma mulher heterossexual cisgênero ter sido escalada para o papel, e não uma trans de verdade. Por um lado, é claro que a crítica é bem colocada pela falta de oportunidades das trans nos diversos meios. Por outro, o nome de uma popular e famosa intérprete pode atrair muito mais público às salas, gerando reflexão naqueles que, fosse uma produção menor e com distribuição mais limitada (afinal, estamos falando de um longa da Globo Filmes), talvez nem soubessem que o filme existe.

Mas e quanto ao desenvolvimento da trama em si? O roteiro tenta traçar de forma leve a trajetória de suas personagens. O que poderia ser negativo acaba se tornando extremamente importante. Ao final, se trata de uma obra intensamente feminista e focada nas mulheres e sua complexa e difícil realidade, sejam trans, héteros ou o quer que possam ser. Temos uma mãe batalhadora que precisou criar a família com seus próprios recursos. Uma outra mulher que luta diariamente por estar presa a um corpo masculino tendo a alma feminina. E até espaço para uma adolescente que, como toda jovem de sua idade, precisa lidar com questões de afirmação, especialmente quando enfrenta o bullying das colegas, especialmente um “projeto de Barbie”.

São personagens como tantas mulheres da vida real que não tem sua visibilidade reconhecida até hoje e precisam batalhar para mostrar que o sexo não é nada frágil como tentam incutir na mente de todos no mundo inteiro. Ainda há espaço para uma trans de verdade, a atriz Carol Marra, demonstrar todo seu talento e beleza como a melhor amiga de Glória. Um personagem pequeno, mas de extrema importância para mostrar uma realidade diferente da amiga no processo de marginalização transexual. Ao fim de tudo, A Glória e a Graça toca num tema tão profundo quanto qualquer destes outros que é a formação de novos tipos de família, quebrando a hegemonia de casais héteros com seus filhos. Com talentos explosivos na tela, em especial com a melhor atuação feminina do ano até agora (Ferraz está incrível), a obra pode não ser perfeita, mas é um produto acima da média e mais do que necessário numa época em que o Brasil vive momentos perigosos de violência física e ideológica. Um produto importante para debater o sexo e a sociedade da forma mais ampla possível.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
avatar

Últimos artigos deMatheus Bonez (Ver Tudo)

Veja também

Comentários