Crítica


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Sinopse

Propõe um olhar por trás da artista, os figurinos, o brilho e o glamour. Fora do palco, no estúdio, em formato acústico e em casa, o público poderá vislumbrar a cantora Lady Gaga sem reservas, em uma série de altos e baixos pessoais e o ponto culminante de uma jornada emocional de um ano.

Crítica

Quem é Lady Gaga? Ou melhor: quem é Stefani Germanotta, o verdadeiro nome por trás da máscara? Sim, pois Gaga é, mais do que Beyoncé, Rihanna, Miley Cyrus ou Taylor Swift, a mais pura popstar surgida neste novo século. Também por isso, não é estranho vê-la volta e meia tentando chamar atenção – nem que seja por conflitos pré-fabricados ou discussões infundadas – com a maior rainha do pop, a incansável Madonna. Tanto isso é fato que as provocações de uma em relação a outra continuam em alta em Gaga: Five Foot Two, documentário musical que – vejam só! – bebe direto na fonte criada por ninguém menos do que a autora de clássicos como Like a Virgin (1984) ou Like a Prayer (1988), que deixou sua marca no gênero com o até hoje insuperável Na Cama com Madonna (1991). Gaga até tenta se apresentar como algo novo, mas o que o seu filme deixa claro é que tudo que ela consegue é reinventar a roda.

Produção original da Netflix exibida no Festival de Toronto e inédita nos cinemas, Gaga: Five Foot Two tem direção de Chris Moukarbel, o mesmo dos alternativos Me at the Zoo (2012) – exibido no Festival de Sundance – e Banksy does New York (2014). Se o primeiro se debruçava sobre o youtuber Chris Crocker – aquele adolescente que anos atrás obteve seus 15 minutos de fama quando foi chorando para a internet pedir que os fãs deixassem Britney Spears em paz (“Leave Britney alone!”, lembra?) e o segundo é um dos tantos – como Banksy’s Coming for Dinner (2009), How to Sell a Banksy (2012), The Banksy Job (2016), Saving Banksy (2017) e, principalmente, Exit Through the Gift Shop (2010), esse indicado ao Oscar – a se debruçar sobre a obra do artista de rua Bansky, dessa vez ele tinha em frente à sua câmera um artista não tentando se esconder, mas, pelo contrário, ansiosa por se revelar. Cabe ao espectador, no entanto, decidir o quanto do que é exibido é verdade ou pura encenação.

Já dizia Eduardo Coutinho, o maior dos documentaristas brasileiros, reverenciado até pela Academia de Hollywood: em frente à câmera, ninguém é verdadeiro. Sendo assim, tudo o que resta é não mais do que encenação. O segredo daquele na direção, portanto, é tornar a captação destas imagens um processo mais natural possível, para que se esqueça da sua presença. Em Gaga: Five Foot Two, no entanto, não é bem o que acontece. Somos lembrados a todo instante que o que está acontecendo ali é o registro de algo calculado. Estuda-se bem o que vai ou não ser mostrado. É a Lady Gaga por trás dos panos, das máscaras, dos figurinos e das fantasias, mas só até determinado ponto. Até quando abordando temas mais delicados, como questões familiares ou problemas físicos, percebe-se que a exposição é controlada, e sempre há um limite que não deve ser ultrapassado. Teatro, mas disfarçado de realidade.

Começamos com o processo de criação de Joanne (2016), seu mais recente e, segundo ela, autoral álbum. Das composições e sessões de gravação temos uma pintada da relação de começa a desenvolver com Hollywood – um convite para o novo filme de Bradley Cooper é meramente citado, um dia no set da série American Horror Story (2015-2016) parece lhe render mais dores de cabeça do que prazer – até passarmos por uma visão do seu lado mais íntimo, como as dores de amor (“será que vou morrer sozinha?”) até o lado familiar (Joanne era o nome da tia que faleceu muito jovem e que ela nunca veio a conhecer, e por isso dedicou uma canção a ela). Tudo está no lugar, mas tão milimetricamente controlado, que se ressente de espontaneidade. Um bom exemplo é a sequência em que vai mostrar a música “Joanne” a avó: ela e o pai, obviamente preparados, exageram nas reações e no sentimentalismo, enquanto que a matriarca, pega de surpresa, nem sabe como reagir, mostrando um desinteresse respeitoso (“é muito bonita, claro, mas já faz tanto tempo, né?”).

E se Gaga força a barra em toda oportunidade que identifica, imagina quando o palco está armado exclusivamente ao seu dispor? É por isso que o clímax do filme são os preparativos para sua apresentação no show do intervalo do Super Bowl, o programa de televisão mais assistido dos Estados Unidos. Cria-se uma expectativa tamanha em relação ao que será visto que é até inteligente deixar o momento em si em suspense – talvez por direitos autorais (isso é especulação, pois o filme não oferece explicação alguma para isso), tal performance não é exibida. Mas, também, não há porque. Gaga já mostrou de mais, e exatamente o que pretendia. É por isso que Gaga: Five Foot Two (a medida do título é uma referência à altura da cantora) tem, entre seus capítulos, um batizado de “o final amargo”. As cores, afinal, estão por todos os lados, mas são de plástico, sem gosto e nem sabor.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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Grade crítica

CríticoNota
Matheus Bonez
5
Renato Cabral
7
MÉDIA
5.3

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