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Sinopse

Através de entrevistas com personalidades como Armínio Fraga, Nelson Mota, Agnaldo Silva e Leda Nagle, o documentário traça a trajetória política e de vida do jornalista, escritor e político brasileiro Fernando Gabeira. Ele é conhecido principalmente por sua atuação junto ao Partido Verde, que ajudou a fundar no país.

Crítica

Documentário que abarca a trajetória do jornalista/político Fernando Gabeira, Gabeira é caracterizado pela prevalência do discurso do biografado. Mesmo sendo condicionado cinematograficamente pelas escolhas do cineasta Moacyr Góes, tanto no que diz respeito às especificidades do perfil dos entrevistados quanto no concernente ao material utilizado para construir o filme, o ponto de vista sobressalente é o desse homem público. Isso se evidencia pela maneira como Fernando, primeiro, é colocado quase de forma onipresente em cena e, segundo, em virtude da falta de fricções entre a sua retórica, a das demais testemunhas e a da própria História. Trocando em miúdos, temos um documentário empenhado tão e somente em dar voz ao protagonista, em ovacionar sua vivência tão rica quanto controversa, sem examiná-lo por ângulos enviesados, sem, por conseguinte, dimensiona-lo em sua amplitude.

Gabeira até ensaia uma boa dialética entre os depoimentos dos amigos/familiares e os de Fernando. O bloco inicial permite intervenções pontuais, que dão conta dos verdes anos desse mineiro. Decidido a tornar-se jornalista, depois de uma vida escolar marcada por sucessivas expulsões, ele desembarcou no Rio de Janeiro e, corajosamente, bateu na porta da redação do então mais conceituado periódico do país, o Jornal do Brasil. Contudo, especialmente a partir do momento em que o longa-metragem chega à narrativa do envolvimento com a luta armada durante a Ditadura Civil-Militar, o que temos é um conjunto de rememorações, cuja resultante é, sem dúvida, absolutamente pessoal e sintomática daqueles anos de chumbo, mas parcial em semelhante medida. As ausências de contrapontos e de um impulso de investigação maior fazem desta uma realização praticamente reverente.

Figuras importantes como Caetano Veloso, Ferreira Gullar e Nelson Motta aparecem ocasionalmente para testemunhar, embora suas falas sejam utilizadas, infelizmente, por Moacyr Góes apenas como complementos à linha de pensamento central e predominante. Gabeira possui momentos bem esparsos de fuga dessa dinâmica viciada à qual se submete voluntariamente. Numa delas, Caetano diz ser leitor de Fernando, mas se considera ideologicamente mais à esquerda que o amigo. Aliás, as posições do protagonista, especialmente sua mudança gradativa rumo a uma postura política liberal, são relativizadas com uma timidez incompatível com sua importância ao todo. Tampouco o cineasta é capaz de extrair algum elemento potencial da participação de Fernando nas recentes e parciais manifestações verde-amarelas contra a corrupção no Brasil, o que expõe um pudor evidente de tocar nisso.

Sobretudo nos seus últimos 30 minutos, Gabeira passa a ser um documentário acerca da desilusão de Fernando com a esquerda, com a aplicação de, por exemplo, ideais marxistas no campo político. Obviamente, são muito bem-vindas as relativizações, como a reprimenda ao tratamento desumano dispensado pelo regime de Fidel Castro em Cuba a homossexuais e intelectuais. Contudo, da forma como as questões ideológicas são postas na telona, fica a impressão de que o principal objetivo do segmento é mostrar a falência de um projeto político-social, pretensamente confirmada por alguém que já o abraçou, mas que atualmente se vê completamente distanciado dele. Moacyr Góes não consegue, ainda, mensurar a importância de Gabeira às lutas que o tiveram como elemento de vanguarda no país, se contentando em fazer de seu filme um rascunho sobre pessoas e eventos bastante complexos.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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