Everybody Digs Bill Evans
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Grant Gee
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Everybody Digs Bill Evans
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2026
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EUA / Irlanda / Reino Unido
Crítica
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Sinopse
Everybody Digs Bill Evans acompanha o lendário pianista de jazz Bill Evans em Nova York, em junho de 1961, quando ele finalmente encontra sua voz artística e consolida o trio ideal ao lado do baixista Scott LaFaro, seu parceiro musical mais próximo. Uma residência no clube Village Vanguard culmina na gravação, em um único dia, de dois álbuns ao vivo que se tornariam históricos. Poucos dias depois, porém, LaFaro morre em um acidente de carro. Biografia.
Crítica
“Eu estou do lado de fora da vida”, diz Anders Danielsen Lie no papel-título de Everybody Digs Bill Evans, filme que faz a opção não convencional de investigar não os momentos mais gloriosos da vida do grande músico norte-americano de jazz, mas um período de inatividade de sua carreira, logo após a inesperada morte de seu parceiro musical, o baixista Scott LaFaro, falecido aos 25 anos em um acidente de carro, no ano de 1961. Ao escolher mostrar justamente esse interstício, a narrativa reflete uma fala de Mary Evans, mãe do protagonista, interpretada pela sempre excelente Laurie Metcalf. Tentando consolar o filho quando o acolhe em sua casa, Mary diz: “Às vezes o intervalo é parte da música”.

Capturando esse intervalo na vida de Bill Evans, o realizador Grant Gee, conhecido por seus documentários musicais, entre eles Joy Division (2007) e Meeting People is Easy (1998), escolhe um caminho pouco traçado, instigante e revelador. Delineia-se um personagem que afirma estar presente apenas quando conectado ao seu instrumento e à sua paixão, o piano. Ao observarmos a pausa na celebrada carreira de Evans (o título do filme, o mesmo de um dos álbuns do pianista, já alude ao seu sucesso), vislumbramos o pianista a partir de sua ausência, o que contraditoriamente acaba por sublinhar a ideia da música como único refúgio possível para ele.
A sequência inicial, que mostra Evans e LaFaro tocando juntos uma última vez, em perfeita sintonia, consegue captar a interação entre os instrumentistas a partir de pequenos gestos e mínimas expressões, como um elo quase místico, prestes a ser quebrado. Piano e contrabaixo surgem dissecados em planos detalhe pela bela fotografia em 16mm, granulada e em preto e branco, que parece capaz de apreender a vibração do som, uma impossibilidade para o cinema. Adiante na narrativa, são ainda mais assombrosos os planos em suave movimento do piano fora de uso de Evans, que surge fantasmagórico, como se invocando o toque do músico.
Também impressiona a atuação de Danielsen Lie, que costuma optar por uma chave de interpretação precisa, pouco afeita ao exagero, mesmo nas muitas ocasiões em que deu corpo a dramas intensos sob a regência de Joachim Trier, realizador norueguês com quem estabeleceu uma longa e frutífera parceria. Se sob a direção desse cineasta o ator havia explorado justamente a relação entre a pulsão da arte e as aflições mentais em títulos como os ótimos Começar De Novo (2006) e Oslo, 31 de Agosto (2011), aqui ele é hábil ao desenhar sem afetações desnecessárias o retrato do artista em crise, dando ao personagem a textura do real mesmo quando ele revela as características mais arquetípicas, como o vício em drogas ou certos traços de misantropia.

A convivência com os pais numa Flórida sombria (outro acerto da direção de fotografia, assinada por Piers McGrail) rende momentos inusitados, que resistem à tentação de recriar os velhos conflitos familiares para edificar um espaço de acolhimento que conquista pela estranheza. No papel do pai de Evans, um ótimo Bill Pullman constrói um tipo que esconde a cada passo a própria fragilidade, contrastando com o temperamento prático e algo rígido da personagem de Metcalf. O desenvolvimento incorpora três flashforwards, esses filmados em cor, que apresentam outras perdas e tragédias da vida do músico, com o futuro sinistro se revelando como prenúncio. Ainda assim, o protagonista vai escolher viver e, para ele, a única forma de vida possível é a presentificação radical proporcionada pela música. Não por acaso, nas cenas em que o pianista reencontra seu instrumento, o realizador escolhe mostrar a música voltando a preencher os ambientes e dá mais espaço às reações daqueles que cercam o instrumentista do que ao ato de dedilhar o piano em si (ação já tão bem demarcada na sequência inicial). Voltamos mais uma vez, à vibração da música, esta forma imperfeita de vida.
Filme visto durante o 76o Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
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