Crítica


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Sinopse

Eve já ostentou o título de maior cultivadora de rosas da França. Atualmente à beira da falência, ela está prestes a se desfazer de seu negócio diante da proposta de seu maior rival. Mas, sua esperança pode estar em três ex-detentos.

Crítica

Se o cinema tivesse realmente a capacidade de “doutrinar” as massas – como sugerem certas pessoas de pensamento mais delirante – o capitalismo já teria vindo abaixo. Isso porque os filmes nos levaram muitas vezes a odiar vilões preocupados apenas com o acúmulo de dinheiro. Alguns desses ricaços aguardam a falência de um pequeno produtor (seja do que for) para assimilar negócios construídos de modo apaixonado e transforma-los em novas engrenagens de lucro. Entre Rosas oferece exatamente esse cenário. Eve Fernet (Catherine Frot) é uma cultivadora de flores que segue a tradição iniciada por seu falecido pai. Financeiramente mal das pernas, ela é cortejada por um empresário almofadinha que aguarda a oportunidade para abocanhar o seu negócio familiar. O filme não particulariza essa dinâmica. Não sabemos, por exemplo, o que levou a protagonista à beira da falência e o que exatamente motiva do personagem endinheirado vivido por Vincent Dedienne. Portanto, a adesão ao clichê deixa margem para somente uma interpretação: ela paga o preço por pensar primeiro na beleza das flores e depois em quanta grana o cultivo pode render; enquanto ele segue imediatamente na direção contrária. E esse simplismo está presente em todos os aspectos do filme selecionado ao 13º Festival Varilux de Cinema Francês. Dos personagens às situações, tudo é plano e raso.

Descrito o cenário e o conflito principal, vamos às pessoas neles envolvidas. Eve é a típica herdeira em maus lençóis disposta às últimas consequências para manter o legado paterno. Traços de obsessão e teimosia são perceptíveis em seu comportamento, bem como a disposição quase cega por continuar. Mas, para além do fato de que essas características não são aprofundadas, Eve é também uma capitalista, de pequeno porte, mas uma capitalista. O cineasta Pierre Pinaud até sinaliza algumas coisas nesse sentido, como quando a mostra passando por cima dos interesses de sua funcionária de longa data, assim exibindo uma atitude indicativa. Mas, nada que resista ao predomínio das lições capazes de asfixiar qualquer complexidade. O realizador não encara essa personagem a partir de um viés crítico, especialmente porque é orientado pela ideia simplória dos percursos de aprendizado. O comportamento de Eve como patroa não está ali para tornar o painel mais multifacetado e difícil de definir e sim como gatilho para o desabafo da funcionária naquela parte da trama em que as pessoas finalmente entendem que precisam melhorar como seres humanos. Eve chantageia os novos funcionários (ex-presidiários em busca de ressocialização) a cometer um crime e o roteiro assinado por Pierre Pinaud e Fadette Drouard minimiza as questões morais envolvidas em função da lógica “os fins justificam os meios”.

Sim, Eve obriga pessoas vulneráveis socialmente a reincidirem no crime, não é severamente questionada ao longo do filme e essa ação ainda ganha verniz de justiça social. Afinal de contas, valeria tudo para acabar com um capitalista desalmado, não é? Não deveria "valer tudo", mas é assim que Entre Rosas define (e defende) o comportamento da personagem principal. Quanto aos coadjuvantes, apenas Fred (Manel Foulgoc) é importante. Os demais são apêndices com pouquíssimos requintes de subjetividade. Fred é o jovem delinquente que se afeiçoa aos poucos a essa chefe de atitude egoísta. E ele acaba descobrindo que possui um dom excepcional para identificar as nuances dos aromas. Portanto, carrega um paradoxo que pode ser compreendido como outro lugar-comum: o rapaz que passou a vida inteira se deparando com o lado feio da vida, rechaçado pelos próprios pais e obrigado a enveredar pelo caminho do crime, carrega uma sensibilidade impressionante. Fazendo um paralelo simplista (e assim pegando emprestados os procedimentos do filme), Fred é como uma flor cujas pétalas superficiais estão visualmente feias, mas que exibe uma beleza inesperada quando certas pragas são combatidas. Claro, ele também está aprendendo. E antes de completar a formação, por assim dizer, mete os pés pelas mãos e se oferece como contraponto para Eve evoluir. Simples assim.

Alguma dúvida de que a animosidade inicial entre Eve e os ex-presidiários se transformará, primeiro, numa relação de colaboração gradativamente mais sólida e, segundo, numa amizade capaz de salvar todos do abismo? A previsibilidade de Entre Rosas não seria problemática se, ao menos, os personagens ganhassem alguma espessura enquanto seguem os protocolos rumo ao óbvio encerramento conciliatório e feliz. O capitalista é apenas rico e pragmático; a pequena produtora de flores é somente aguerrida e teimosa de um modo bem-vindo; o ex-apenado é estritamente o que descobre a beleza onde menos se esperava. Enquanto isso, os demais são penduricalhos que ajudam a diversificar momentaneamente os pontos de vista, nada mais do que isso. Várias possibilidades que são sugeridas ao longo do enredo não ganham a atenção e a elaboração merecidas. Eve tenta controlar as etapas da natureza para ser feliz. E o filme sequer relaciona a efemeridade das rosas com a dos anseios de grandeza. Fred até coloca sua nova patroa em xeque, sobretudo as chantagens para chegar aos objetivos, mas acaba aderindo mais facilmente a uma oferta de mentoria. E o filme nem ao menos se esforça para perceber isso como indício da carência do jovem por figuras paternas/maternas. O saldo é uma trajetória do tipo que vimos inúmeras vezes, com raras notas de aroma e beleza próprios.

Filme assistido durante o 13ª Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2022.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.

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CríticoNota
Marcelo Müller
4
Alysson Oliveira
6
MÉDIA
5

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