Diabo no Corpo

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Sinopse

Em Diabo no Corpo, Andrea, um estudante do ensino médio italiano, apaixona-se por Giulia, uma mulher cujo noivo está preso por sua participação em um movimento radical. No início, ela tenta resistir às investidas de Andrea, mas acaba começando uma relação com ele. A situação é condenada pela família dela e pelo pai do garoto, que é psicólogo de Giulia. Romance/Drama.

Crítica

Andrea (Federico Pitzalis) segue, como se hipnotizado, alheio a qualquer traço de racionalidade, os passos de uma bela desconhecida que acabara de ser mera coadjuvante num evento insólito, a ameaça de suicídio no telhado próximo à sua sala de aula. Totalmente inebriado, guiado pelos instintos, ele chega ao tribunal onde descobre que ela é noiva de um homem acusado de participar de movimentos radicais. Diabo no Corpo é marcado, de cara, por essa fascinação que Giulia (Maruschka Detmers) exerce sobre o estudante secundarista. O diretor Marco Bellocchio constrói uma atmosfera que espelha sobremaneira as sensações dos personagens, permitindo-se até mesmo prescindir de explicações demasiadas e taxações, que tornariam ordinário um percurso, então, guiado pelas vicissitudes. Um arroubo praticamente surrealista permite o primeiro contato direto dos protagonistas, já que a curiosidade de testemunhar o sexo entre dois encarcerados em pleno julgamento os une intimamente.

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A libido é o combustível de Diabo no Corpo. Bellocchio faz de Giulia uma catalisadora, inclusive do amadurecimento de Andrea, sem com isso deixar de mergulhar profundamente nas complexas questões dela. Mulher imprevisível, cuja sensualidade exala do olhar enigmático, bem como do corpo às vezes desnudo sem pudor, ela se deixa levar pelo entusiasmo do jovem, não sem sofrer a censura da futura sogra, esta que se lança, em vão, nas seguidas tentativas de castrar seus impulsos. Os passeios idílicos tratam de ligar gradativamente os que logo se tornam amantes em tórridas cenas de sexo. Giulia se mostra instável, condição só rivalizada em importância pelo poder de sua sensualidade. Essa espécie de campo magnético que atrai Andrea (bem como o espectador) é resultado da soma nada cartesiana do imenso talento de Bellocchio para registrar momentos representativos em que as pulsões se impõem e do trabalho de Maruschka Detmers, atriz inteiramente entregue ao difícil papel.

Fortemente influenciado pela psicanálise de Massimo Fagioll, a quem dedica o longa-metragem já nos créditos iniciais, o diretor Marco Bellocchio expõe, por meio do comportamento movediço de Giulia, os ditames da psique. No começo de Diabo no Corpo, o ponto de vista é o de Andrea, exatamente para que saboreemos o encantamento dele diante da mulher tão bela quanto psicologicamente indecifrável. Essa perspectiva é invertida aos nos aproximarmos da protagonista, ainda que desse encurtamento de distância não decorra uma investigação definitiva de suas motivações. A polêmica que envolve este filme é muito suscitada pela cena em que ocorre uma breve e explícita felação. Bellocchio e seus atores demonstram nesse pequeno fragmento, de forma nenhuma gratuito ou apelativo, pois totalmente integrado à proposta de utilizar o sexo para ajudar a esquadrinhar as pessoas, e, por conseguinte, a sociedade italiana da qual elas fazem parte, a coragem inerente à arte.

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Cada vez mais atormentada pela iminência da soltura do noivo, Giulia se abeira perigosamente dos limites, chegando a apresentar comportamentos violentos na presença do garoto que, a olhos vistos, se torna homem. Já Andrea, mesmo firme em seu propósito de seguir o relacionamento, encara a reprimenda do pai, psicanalista que anteriormente atendera seu amor. Aliás, nessa relação pai/filho se instaura uma rivalidade latente, cuja motivação é exatamente Giulia. Em Diabo no Corpo, literal e simbólico convivem harmoniosamente, sem a necessidade de espaços demarcados. Mais que o sexo enquanto ação, o desejo em seu estado mais primitivo é o atributo principal da narrativa, via de chegada ao êxtase ou à danação (aqui entendida como loucura). Marco Bellocchio cria uma obra muito sensorial, haja vista a requintada concepção da imagem, que sublinha as diversas experiências dos personagens, da paixão ao ódio, do gozo à quase morte, da desesperança às lágrimas de estesia.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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