As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você

Crítica


5

Leitores


5 votos 8.4

Onde Assistir

Sinopse

Em As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, Gabriela tem sua vida transformada pelo falecimento repentino da melhor amiga. Em meio ao luto, ela recebe um inesperado presente de despedida: diversas cartas contendo desafios que a incentivam a enfrentar a dor, redescobrir a si mesma e seguir em frente. Agora, é partir para a aventura. Drama.

Crítica

A filmografia de Diego Freitas parece estar mudando de direção. Em seus primeiros trabalhos, o curta Sal (2016) e o longa O Segredo de Davi (2018), o cineasta apostava em gênero estilizado, atmosferas sombrias e personagens marcados por conflitos internos. Nos últimos anos, porém, apostas como Depois do Universo (2022), Caramelo (2025) e, agora, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você apontam para um caminho mais próximo do feel good movie, empenhado em oferecer conforto e esperança ao espectador. E está tudo bem! O cinema também pode ser lugar de acolhimento, sem precisar transformar toda experiência em confronto ou desconforto. A questão surge quando o desejo de consolar reduz a complexidade daquilo que se pretende contar.

20261026 as dez vantagens de morrer depois de voce papo de cinema 750 1

Adaptado do livro de Fernanda de Castro Lima, o longa acompanha Gabi (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be), amigas desde a infância, mas com maneiras bastante diferentes de encarar a vida. Reservada e insegura, Gabi contrasta com a espontaneidade de Julia, cuja morte em um acidente de carro deixa a jovem sem saber como seguir em frente. As dez cartas deixadas pela amiga passam a orientar os dias de Gabi por meio de desafios que a tiram da rotina e a colocam diante dos próprios receios. A premissa abre espaço para explorar como a ausência de alguém pode transformar nossa relação com a vida, mas a narrativa nem sempre escapa do caminho previsível das histórias de superação.

Any e Giulia, aliás, têm carisma e combinam com a proposta juvenil. A dinâmica entre as duas funciona melhor quando a amizade ganha espontaneidade, sem precisar ser reforçada a todo instante por declarações enfáticas. Daniel Rangel, Pâmela Germano e Michel Joelsas também contribuem para a simpatia do elenco, mas, vale dizer, o conjunto não consegue sustentar o envolvimento de maneira consistente. Em diversos momentos, a condução dramática assume ares novelescos, com interpretações e reações que nem sempre soam naturais. O melodrama acaba se sobrepondo à delicadeza que a relação entre as protagonistas alcança em suas melhores passagens, tornando algumas situações menos convincentes do que poderiam ser.

Nessa construção, a obra também tenta abraçar assuntos demais em menos de duas horas. Culpa, redenção, amadurecimento, amizade, florescer da vida sexual e até o amor queer na terceira idade (com, é preciso dizer, Leo Jaime e Arthur Khol em cenas encantadoras) disputam espaço sem receber a mesma atenção. As cartas dão ao roteiro uma estrutura episódica, mas os desafios acabam parecendo uma lista de tarefas que Gabi precisa cumprir até chegar à próxima etapa de sua transformação. Um processo naturalmente irregular como o luto ganha, assim, contornos excessivamente organizados, como se cada experiência trouxesse uma lição pronta e um avanço mensurável. A vida, convenhamos, não costuma respeitar esse tipo de cronograma – e talvez a narrativa se tornasse mais interessante se aceitasse um pouco de anarquia.

20261026 galeria 07 6

Essa necessidade de delinear tudo também aproxima o projeto da lógica algorítmica que vem ganhando cada vez mais espaço no cinema comercial. As situações se repetem, as emoções são reiteradas e as explicações deixam pouca margem para interpretações. Não se trata de exigir ambiguidade a qualquer custo, mas de reconhecer que nem toda ideia precisa vir acompanhada de confirmação verbal, assim como nem todo conflito exige uma resposta definitiva. As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você quer emocionar e isso não é problema. Mas sublinhar tanto os sentimentos faz com que nos sobre pouco para descobrir por conta própria.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *