Crítica

Acostumado a lidar com personagens cujos ferimentos internos se extrapolam através de atitudes drásticas em suas vidas, o cineasta Jean-Marc Vallée (dos excelentes Clube de Compras Dallas, 2013, e Livre, 2014) continua demonstrando habilidade para construir esse tipo de figura. Por exemplo, já na primeira cena de Demolição se estabelece de forma econômica a dinâmica do casal Davis (Jake Gyllenhaal) e Julia (Heather Lind): ela, na direção do carro, assume o controle da rotina de ambos, enquanto ele fala sobre negócios ao celular com o sogro (Chris Cooper). Estariam Davis e Julia em crise? As alfinetadas que trocam entre si fazem parte de suas interações comuns? Se numa primeira análise isso parece não importar, é porque a diferença estará no que o diretor irá fazer com essa dubiedade.

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Não é incomum que venhamos a projetar nossos próprios conflitos internos nas pessoas, nas situações e, por que não, nos objetos ao nosso redor. É uma defesa emocional e psicológica, e quando esse tipo de reação atinge um limite crítico, começamos a descontar as frustrações, a tristeza e a raiva nessas coisas. Desconstruir uma geladeira que pinga ou uma porta que range pode muito bem ser apenas o reflexo da nossa própria recusa em desconstruir aquilo que está pingando e rangendo dentro de nós.

Depois de um acidente que deixa Davis intacto e Julia morta, o investidor se mostra aparentemente incapaz de ficar enlutado pela perda da esposa, e começa a extravasar escrevendo cartas de reclamação para um fabricante. Sendo respondido pela misteriosa Karen (Naomi Watts), ele descobre uma vida muito diferente da sua – enquanto isso, os pais da falecida se ressentem com sua ausência e temem que ele não queira assinar os documentos que liberam o dinheiro do seguro de vida da filha para que criem uma bolsa de estudos no nome dela.

Ator extraordinariamente versátil, Jake Gyllenhaal não tem problemas em viver o alquebrado protagonista, equilibrando o olhar constantemente melancólico com outras posturas corporais que tentam esconder a turbulência daquele homem por dentro. E, mesmo calmo na maior parte do tempo, é notório que esteja enfrentando um furacão de sentimentos. Vallée ilustra isso com flashes e “aparições” de Julia na rotina de Davis – um truque que repete depois de tê-lo usado em Livre, e que funcionava um pouco melhor naquele longa, devido a sutileza. Esses relances, porém, jamais acusam a verdadeira natureza do casamento dos dois, e são o suficiente para continuarmos questionando se o viúvo realmente não amava mais sua esposa e, portanto, não consegue sentir a tristeza de sua perda, ou se suas estranhas investidas são uma forma de escapismo descontrolado, justamente para não ter que lidar com a dor.

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A questão, no entanto, é que tal dúvida não adquire maior importância. Demolição entende isso bem o bastante para não se sustentar sobre essas possibilidades. Pois, de uma forma ou de outra, é claro que Davis está fugindo de uma realidade que não deseja enfrentar. Não é por acaso que decide levar suas próprias palavras a sério – “tudo é uma metáfora” – passando a realizar atos de peso flagrantemente simbólicos em sua jornada, e assim, ao invés de rejeitarmos a covardia do protagonista, nos vemos abraçando sua empreitada quase autodestrutiva de viver fugindo daquilo que realmente significa. Como estudo de personagem, o longa-metragem de Vallée é melancolicamente magnético (mas de novo, assim também eram seus trabalhos anteriormente citados), porém, como filme, é um pouco mais trôpego.

Um exemplo está no fato do roteiro de Bryan Spice pouco explorar a promissora relação de Davis com o filho de Karen, Chris (Judah Lewis), o que, devido as temáticas que envolvem o garoto, soa quase desrespeitoso que o filme as introduza só para ignorá-las depois. Além disso, apesar da relevância, menos atenção ainda é dada à personagem de Watts, quase avulsa na trama. O que, felizmente, não acontece com Chris Cooper, que tem tempo e texto suficiente para construir Phil como um pai destruído e, paralelamente, austero na tentativa de manter o controle sobre a situação com seu genro – e sua performance é instrumental para o funcionamento de uma parte importante do filme, já que mesmo visto através da perspectiva de Davis, Phil jamais soa vilanesco, e mesmo seus momentos mais tensos escondem uma dor subjacente que transformam sua rigidez em provas de sua capacidade de sentir empatia.

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Assim, é uma pena ver que Vallée, em Demolição, aceite entregar figuras que tanto se empenha em construir junto a seus atores a um final de soluções fáceis e batidas. Um desfecho quase colorido e otimista, apesar da palheta predominantemente cinza, que jamais faz jus a complexidade dos personagens que acompanhamos até ali – ainda bem que a jornada, no caso, compensa mais do que seu resultado.

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é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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