Coward

Crítica


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Sinopse

Em Coward, um soldado belga enfrenta o horror das trincheiras da Primeira Guerra Mundial enquanto tenta superar seus próprios medos. Em meio à brutalidade do conflito, ele é levado a confrontar limites físicos e emocionais que colocam em xeque sua noção de coragem e sobrevivência. Drama/Guerra.

Crítica

Em sua reta final, a competição do Festival de Cannes apresentou em sequência The Man I Love (2026), de Ira Sachs, La Bola Negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo, e Coward, de Lukas Dhont, três filmes bem distintos entre si em termos de linguagem, ambientados em épocas distintas, mas que traziam em comum um aspecto importante: a arte como foco de resistência para personagens gays.

Com o filme de Sachs, que se passa na Nova York dos anos 1980, Coward guarda como semelhança o fato de ambos retratarem trupes teatrais lideradas por uma figura com um talento criativo e artístico fora do comum. Já com La Bola Negra, ambientado durante a Guerra Civil Espanhola, o longa de Dhont, que se passa em meio a um pelotão belga na Primeira Guerra Mundial, traz a arte como antídoto para a violência física dos conflitos e para a batalha interna de se assumir a orientação sexual.

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Coward é o terceiro longa do diretor belga, e assim como nos outros dois, os dramas O Florescer de uma Garota (2018) e Close (2022), os protagonistas enfrentam o desconforto de não se enquadrarem no que é determinado como comportamento padrão por pressões sociais – no caso, o ambiente masculino de uma tropa de combate em meio a uma guerra. Os comandantes de um pelotão belga percebem que a formação de uma trupe teatral de soldados nas horas de descanso pode produzir efeitos benéficos para aliviar o stress desumano do front, e isso fica claro na maneira como eles se divertem fazendo e assistindo aos espetáculos.

O “diretor artístico” é Francis (Valentin Campagne), e seu comportamento flamboyant não deixa dúvidas sobre sua orientação, mas em momento algum ele é recriminado ou sofre algum tipo de discriminação por parte dos colegas. O fascínio que desperta no discreto e tímido Pierre (Emmanuel Machia) vai crescendo ao longo da trama, até que o amor entre os dois aflore. É um jogo de sedução que vai sendo construído delicadamente através de closes por parte da direção. Quanto mais a câmera se aproxima, mais íntimos eles parecem.

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Mas há uma guerra lá fora, tida como a mais sangrenta da história, e Coward não maquia o horror, embora não se vejam explicitamente cenas de confronto com o exército inimigo. Quando há uma apresentação para feridos (muitos em condição crítica) num hospital, enfermeiras aparecem lavando uniformes cheios de sangue, o que pode soar mais impactante do que a visão de corpos mutilados. O foco está na dor psicológica daqueles que sabem que poderão morrer a qualquer momento, como o soldado que entra em depressão profunda por achar que nunca conhecerá o filho recém-nascido.

Há um sentido amplo para o adjetivo covarde que dá título ao filme, que pode se referir à própria guerra em si, mas quem sofre mais com a pecha é Pierre, após ser confrontado por um companheiro que percebe que ele se feriu de propósito para sair do front e ficar ao lado de Francis fazendo arte. Com liberdade para criar e se expressar, Francis chega a dizer que preferia que a guerra não terminasse nunca, pois ali ele se sente livre para ser quem é. Nos anos 10 do século passado, ele sabe que regressar para casa significaria enfrentar uma outra guerra, pessoal, contra um preconceito até então invencível.

Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026

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é crítico de cinema do jornal O Globo desde 2006, editor do website Criticos.com.br, professor de cursos livres de cinema, diretor e roteirista da série "Na Trilha do Som", disponível no Curta On/Prime Video. É autor do livro “Revisão Crítica” (Autografia). Foi presidente, entre 2003 e 2006, da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Como membro da FIPRESCI, presidiu o júri da crítica no Festival de Cannes de 2024 e foi jurado em diversos outros festivais internacionais, como Veneza, Berlim, Rotterdam, etc. Na TV, apresenta o Cineclube Futura (Canal Futura), trabalhou como crítico e comentarista do canal Telecine Cult e foi colunista do programa Revista do Cinema Brasileiro, na TV Brasil.
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