Crítica


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Sinopse

Vinte e oito atores, experientes e iniciantes, são acompanhados durante sua trajetória profissional afastada de qualquer glamour ou reconhecimento público pelo trabalho que fazem. Trata-se de um retrato da realidade que vivem os profissionais da atuação no Brasil, um país cheio de contradições quando o assunto é a arte de interpretar.

Crítica

Há um sintomático desejo de expor bastidores desde o princípio de Como Você Me Vê?, com a revelação da equipe, da câmera extra que acrescenta ângulos, entre outros componentes similarmente funcionais que deflagram a construção cinematográfica, com isso denunciando o esforço laboral por trás da arte. Embora esse indício se restrinja mais expressivamente aos minutos iniciais, no decorrer do documentário ressurgindo rápida e esporadicamente, ele é relevante para o entendimento do verdadeiro interesse de Felipe Bond. O cineasta alinhava os depoimentos de atores e atrizes, falas, por certo, singulares, mas que, de acordo com o encadeamento proposto pela montagem, formam discursos relativamente coerentes, possibilitados exatamente pela justaposição das similaridades, a despeito das origens diversas. Mais que propriamente propor um inventário do ofício nobre da atuação, num sentido amplo, o filme põe os pés no chão.

Antes de qualquer coisa, é salutar a multiplicidade verificada na amostragem escolhida pelo realizador. Entre os testemunhantes, há pessoas cujas carreiras são amplamente celebradas, como Osmar Prado, Gracindo Júnior, Letícia Sabatella, Zé Celso Martinez Correa, Cassia Kis Magro, Stênio Garcia e Tonico Pereira, para citar apenas alguns; representantes de uma geração que ainda busca seu espaço ao sol, como Erom Cordeiro, Sílvio Guindane, Luciano Vidigal; e outros com trajetórias menos conhecidas da massa, com destaque para os emblemáticos exemplos de Carlos Gandra e Marília Coelho. O caso desses dois intérpretes é capital ao veio temático mais fortemente explorado por Como Você Me Vê?, que é justamente a instabilidade financeira da profissão. Ambos, ele, como taxista, ela, como diarista e MC, precisam desempenhar outras funções para inteirar o orçamento. Tonico Pereira, consagrado no teatro, na televisão e no cinema, dirige um negócio para encarar a entressafra, sendo uma interseção.

Como Você Me Vê? se detém demoradamente nos aspectos funcionais, saindo deliberadamente da reflexão artístico/existencial/filosófica acerca das implicações de encarnar outrem, em que meio for, para pensar os pontos prosaicos, essencialmente as dificuldades inerentes ao caminho dos artistas, especialmente num país como o Brasil, carente de políticas públicas de fomento cultural. Felipe Bond se esforça visivelmente para criar uma ressonância interna que dê conta dessa observação pragmática, logrando êxito no mais das vezes, embora ocasionalmente a operação soe demasiadamente engessada por, talvez, uma preconcepção. A prevalência dessa vontade de escrutinar a atuação a partir das intempéries cotidianas acaba quase sufocando os demais vieses surgidos no entrecruzamento das vivências. As falas de Matheus Nachtergaele, sobretudo, apontam a um caminho poético percorrido apenas timidamente pelo documentário, já que, realmente, o ideal predominante é a leitura prática.

Sacrificando um pouco a fluidez do filme, Felipe Bond concede espaço maior a alguns testemunhos, relegando a outros o mero papel de complementariedade. Todavia, Como Você Me Vê? oferece uma visão pouco disseminada sobre a atuação enquanto atividade profissional, despida do véu de glamour e idealização a ela associado, tão recorrente no imaginário popular. Há momentos luminares, como a declamação de um texto por Gracindo Júnior e seus filhos, Gabriel e Pedro, também atores, bonita homenagem ao falecido Paulo Gracindo, precursor da linhagem que, então, seguiu seus passos. Nesse percurso, não obstante o caráter acidentado, efetivamente instigante como instrumento de ponderação, também se destacam as intervenções de Cássia Kis Magro e Osmar Prado, representantes do setor experiente que conserva o entusiasmo e o amor pela vocação, e de Rodrigo Pandolfo e Patrick Sampaio, estandartes de uma juventude ciente de riscos, dos percalços, mas, mesmo assim, apaixonada.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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Grade crítica

CríticoNota
Marcelo Müller
7
Edu Fernandes
8
MÉDIA
7.5

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