Crítica

Chris Evans é um cara feliz. Seus quatro filmes como super-herói (Quarteto Fantástico, 2005; Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, 2007; Capitão América: O Primeiro Vingador, 2011; e Os Vingadores, 2012) arrecadaram juntos, até o momento, mais de um bilhão de dólares somente nas bilheterias americanas! Um resultado como esse é suficiente para deixar qualquer um com um enorme sorriso no rosto. Mas Evans, pelo jeito, não está satisfeito, e tem aproveitado seu tempo livre entre o Tocha Humana e o Capitão América para se envolver em projetos bem mais discretos, mas não menos interessantes. Como esse Código de Honra (título nacional péssimo e sem muito sentido para o original Puncture, ou seja, Incisão), um filme que quase ninguém viu, infelizmente.

Puncture (só irei me referir assim, pois o nome no Brasil é muito ridículo) merecia ter tido uma maior audiência – ou qualquer audiência, pois por aqui, assim como em muitos países, foi lançado diretamente em DVD – por dois motivos: pelo tema que aborda e pela ótima interpretação de Chris Evans, uma das melhores de toda a sua carreira. Ele aparece como um advogado de segunda linha, completamente entregue ao vício nas drogas, que percebe, quase que por acaso, que possui em seu colo um caso de alcance nacional que poderá mudar a sua vida e a do seu sócio (Mark Kassen, também co-diretor, ao lado do irmão Adam Kassen). Um engenheiro independente inventou uma “seringa segura”, que não pode ser reutilizada e é incapaz de provocar acidentes médicos. Parece algo perfeito, mas por que nenhum hospital se interessa em utilizá-la? É um legítimo caso de David e Golias, em que por trás do sistema de saúde existe um gigantesco monopólio de compra e venda de suplementos e equipamentos hospitalares que não possui o menor interesse em ter sua supremacia ameaçada.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem utilizadas poderiam ser esterilizadas no calor. Essa data marca a morte do presidente da Thompson, uma das gigantes da indústria médica, e com a posse dos seus herdeiros optou-se por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa de plástico. Como essa não pode ser esterilizada, sua utilização é apontada em estudos como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças – inclusive a AIDS – em todo o mundo, devido a sua reutilização irresponsável. Puncture fala sobre isso, mas fala também sobre como a ganância do ser humano o torna cego e, obviamente, sobre como qualquer tipo de vício pode acabar com um homem, independente de sua determinação em superá-lo, ou não.

Assim como nos pequenos e independentes Sociedade Feroz (2005) e London (2006), Chris Evans interpreta em Puncture um tipo que explora seus pontos fortes (o bom físico, o aspecto simpático, o visual atraente) ao mesmo tempo em que se arrisca também em campos mais ousados, como a violência, as drogas e temas sociais. Essa entrega e dedicação, aliadas ao fato de se tratar de uma história baseada em fatos reais, torna este filme relevante. Profissionais mais experientes provavelmente fariam dessa trama um produto melhor acabado e pertinente, mas isso não tira o mérito dessa obra que, mesmo que tenha um alcance restrito, cumpre com eficiência os objetivos a que se propõe.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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