Crítica


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1 voto 6

Sinopse

Durante mais uma disputa eletrizante nas pistas, o campeão Relâmpago McQueen acelerou demais e acabou perdendo o controle. Agora, após ter capotando várias vezes e quase ter partido dessa para melhor, o vermelinho vai ter sua vida alterada para sempre. O acidente foi tão grave que, com os estragos, McQueen pode ter que se aposentar de vez.

Crítica

O tema de Carros 3 é a obsolescência. Isso fica muito claro logo no início, quando o atual campeão da Copa Pistão, Relâmpago McQueen, começa a perder terreno para uma leva de corredores jovens. É construída com pressa e sem potência essa curva descendente da carreira do carro vermelho, até então, considerado o bólido a ser batido nas pistas mundo afora. A efemeridade da fama é também apresentada, mas não utilizada como elemento para discussões minimamente aprofundadas. O protagonista desta produção da Pixar força limites, custando a aceitar que o tempo passou e uma época de estatísticas e leituras científicas tenciona a soterrar inapelavelmente a vibração com seus resultados impressionantes. O antagonista da vez é Jackson Storm, veículo que treina com o benefício da dobradinha conhecimento/tecnologia. Existe um constante embate entre o velho e o novo neste filme pouco afeito a investigar as potencialidades para além do nível epidérmico. No âmbito geral, há claros sinais de esgotamento da franquia.

 

Um acidente grave abrevia a temporada de McQueen, fazendo-o voltar à cidade interiorana que o recebeu no primeiro longa, quando ele ainda era um calouro cheio de gás e arrogância. Ao invés de mostrar o ambiente acolhedor como um emplastro aos ferimentos na lataria e no orgulho do corredor, o realizador prefere passar batido por essa instância, mencionando burocrática e desinteressadamente os dias dele afastado das competições. O decorrente dilema da aposentadoria é subaproveitado como fantasma que espreita, poucas vezes se insurgindo enquanto ameaça verdadeiramente dramática. A inclusão da coadjuvante Cruz Ramirez trata de conferir alguma dinâmica ao transcorrer de Carros 3. Sua empolgação como treinadora da lenda, sob a égide do patrocinador com uma visão voltada prioritariamente ao mercado, dá lugar ao aprendizado. A vida é mais que sagrar-se ou não campeão. Moral posta.  A troca entre ela e o carro número 95 da Rus-eze atenua ligeiramente o desenvolvimento morno.

As corridas, grande valor da emoção dos filmes antecessores, especialmente do primeiro, em Carros 3 são desprovidas de vibração. Importante ao longa-metragem é delinear o percurso de uma transformação que independe da vontade de McQueen, pois condicionada pela inevitável passagem do tempo. O protagonista está disposto a se colocar em forma para desafiar os concorrentes obviamente mais rápidos. Mas, não é exatamente a coragem que faz a trama ir adiante, e sim uma não tão sutil troca de bastão, consolidada tortuosamente. A única novidade nesta produção é a tentativa de construir outra figura emblemática para a cinessérie, algo tão necessário quanto arriscado. A visita às lendas de outrora injeta combustível na história, propiciando boas passagens, embora até nesse ponto persista a tendência de abordar tudo superficialmente, o que depõe bastante contra o filme. Visualmente, o cineasta Brian Fee segue a competente cartilha estabelecida, não ousando e tampouco deixando a peteca cair.

Não é de hoje que a Pixar dá sinais de colapso criativo. Apesar de Carros nunca ter sido um de seus produtos mais inventivos, havia na sua aventura original uma bem-vinda reciclagem de elementos recorrentes do cinema, adaptados habilmente para o universo dos carros antropomorfizados. O subsequente já demonstrava dificuldades para dar andamento à ascensão de Relâmpago McQueen. Carros 3 confirma a sinalização do predecessor, de que os personagens carismáticos não conseguem garantir a nossa adesão se desenvolvidos dentro de uma estrutura narrativa carente de inspiração. As lições são devidamente aprendidas, o veterano se depara com a inevitabilidade da nova era, aprendendo a tirar dela possibilidades nunca antes aventadas. Contudo, o desempenho de Relâmpago McQueen nas pistas pode bem representar o próprio momento da Pixar. Talvez seja a hora de fazer o pit stop, trocar o óleo e azeitar o motor, antes que restem somente lembranças e láureas penduradas na parede.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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Grade crítica

CríticoNota
Yuri Correa
5
Bianca Zasso
8
Matheus Bonez
5
MÉDIA
5.8

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