Crítica

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Giba Assis Brasil, um dos melhores montadores nacionais em atividade, premiado no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e nos festivais de Gramado, Brasília e Cine Ceará, costumava dizer, nas aulas de roteiro que ministrava, “que se a realidade pode se dar ao luxo de ser por vezes absurda, é tarefa da ficção ser plenamente crível e verossímil”. Pois bem, qual não é o prazer de um contador de histórias quando se vê diante de uma história real tão inacreditável que tudo o que tem a fazer para adaptá-la em um produto cinematográfico é, simplesmente, minimizá-la até o ponto de ser ao menos razoável? Pois provavelmente esta foi a tarefa assumida por Todd Phillips ao se deparar com a trama de Cães de Guerra, uma daquelas comédias das quais se ri de nervoso frente a tantas situações surreais que somente assumindo-as como verdadeiras para serem, enfim, admissíveis.

David Packouz (Miles Teller) era mais um jovem norte-americano sem rumo na vida quando reencontrou um antigo colega da escola, Efraim Diveroli (Jonah Hill). Enquanto o primeiro tentava se manter como massagista profissional, ao mesmo tempo em que acreditava ter uma grande oportunidade em mãos ao investir no comércio de lençóis para asilos (uma ideia que logo se revelou sem futuro), o amigo havia se mudado de Miami para Los Angeles, onde, ao lado de um tio, aprendeu todos os macetes do negócio de armas. Em um país altamente militarizado, esse sempre pareceu ser um mercado próspero. O que os dois, agora já sócios, estavam prestes a descobrir às vésperas da Guerra do Iraque é que não há nada melhor para uma atividade como essa do que um conflito bélico em vista. E assim que, quase por acaso, conseguem fechar um contrato de US$ 300 milhões com o Pentágono, ambos se veem em sérios apuros para tentar cumprir os termos do acordo.

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‘Cães de Guerra’ é uma expressão usada para designar intermediários que, assim como esses dois, ganham a vida a partir dos esforços dos outros, sem, na prática, sujarem as próprias mãos. São autointitulados profissionais que negociam compra e venda de armamentos, equipamentos militares e artilharia variada, apenas conectando oferta com procura, sem sequer chegar a conhecer um ou outro. Neste caso em específico, a vida de ambos estaria para sempre garantida se tivessem se contentado com os peixes pequenos que os verdadeiros tubarões há muito deixavam de lado. Porém, quando esse acerto em específico surge no cenário deles, tal tentação se revelou forte demais para ser ignorada. E ao se verem obrigados a cumprir uma demanda muito além das possibilidades com as quais estavam acostumados, são obrigados a lidar com outros atravessadores muito mais experientes – e com agendas com as quais eles, em suas ingenuidades, nem ao menos imaginavam.

Há não menos de dois anos, Miles Teller aparecia na tela como um dos amigos de Zac Efron em Namoro ou Liberdade? (2014). Se desde então o ex-galã Disney repetiu praticamente o mesmo personagem descamisado em títulos como Vizinhos (2014) e Os Caça-Noivas (2016), Teller tem visivelmente buscado uma maior diversidade, indo de sagas como Divergente a heróis dos quadrinhos como Quarteto Fantástico (2015), passando pelo drama indicado ao Oscar Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014). Cães de Guerra se encaixa melhor nessa última corrente, investindo em uma narrativa tensa, absurdamente cômica e sem medo de ousar em decisões mais arriscadas. Porém, ainda que seja ele inegavelmente o protagonista, a verdadeira força do filme é Jonah Hill, deixando claro que as duas indicações ao Oscar que soma até o momento não foram obra do acaso. A insanidade permanente em seu olhar, a lábia afiada e o perfil dissimulado, do qual nunca se sabe o quanto do dito é de fato verdade, colaboram para fazer desse um dos tipos mais complexos de sua filmografia.

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Todd Phillips, curiosamente, é também o responsável pela trilogia Se Beber Não Case e por comédias ligeiras como Um Parto de Viagem (2010). Este, talvez, seja o ponto em falso do filme, pois uma vez que o cineasta é novato no estilo, termina por se apoiar exageradamente num ritmo histriônico e excessivamente narrativo similar ao de sucessos como O Lobo de Wall Street (2013) – sensação reforçada pela presença de Hill – e A Grande Aposta (2015). Bradley Cooper, em participação discreta, porém não menos ameaçadora, faz as vezes de Brad Pitt nesse último, envolvendo-se também na produção do projeto, quase que numa contrapartida em favor do seu antigo parceiro, o diretor que o revelou na saga dos três amigos festeiros que aprontavam todas nas vésperas de um casamento qualquer. A diferença, entre o antes e o agora, é que se lá estávamos todos, em ambos os lados da tela, cientes de que tudo não passava de mera fantasia, aqui a dúvida permanece do início ao fim. Um mérito tão duvidoso que, talvez com menos, o resultado fosse ainda melhor.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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