Crítica


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Sinopse

Dois policiais de diferentes procedências tem suas histórias apresentadas em um tempo presente e alternativo. Ward, um humano, e Jakoby, um orc, embarcam em uma patrulha noturna rotineira que vai alterar o futuro do mundo como eles o conhecem. Lutando para superar suas diferenças pessoais e também as investidas de vários inimigos, eles deverão trabalhar juntos para proteger uma relíquia mortal, que deveria ter caído em esquecimento e que, em mãos erradas, pode destruir tudo que existe.

Crítica

É bastante promissor o começo de Bright, uma das grandes apostas da Netflix em 2017, no que concerne às suas produções cinematográficas originais. Já na cena dos créditos, são expostas, de maneira sucinta e inteligente, as tensões raciais que pairam sobre esse mundo onde coexistem humanos, elfos, orcs e até fadas. A câmera mostra pichações e demais manifestações nas ruas que deflagram domínios, mensagens e, claro, agressividade. É singular e efetiva a mistura que o cineasta David Ayer faz ao entrecortar uma narrativa essencialmente urbana e, de certa forma, filiada mais ao realismo, com elementos próprios às obras fantásticas que, portanto, acessam outro tipo de imaginário. Assim, policiais são destacados para conter distúrbios provocados pelos magos, por exemplo. Nessa apresentação, sobressai a metáfora calcada na odiosa discriminação étnica, aqui delineada pela dificuldade de convivência harmônica, via preconceitos, entre espécies física e emocionalmente diferentes.

Os protagonistas são os policiais Ward (Will Smith), um humano, e Nicky (Joel Edgerton), um orc, aliás, o único dos Estados Unidos que veste a farda, para isso renegando algumas tradições de sua espécie, como as presas afiadas. Com pitadas bem dosadas de humor, especialmente na interação forçada desses parceiros incomuns, Ayer costura um elo improvável, novamente, utilizando o inumano para construir uma alegoria que serve de pilar central ao filme, mais ou menos, até a sua metade. Quando vemos orcs apanhando da polícia sem motivo aparente, óbvio isso remeter-nos ao histórico de desmandos dos homens de distintivo no trato com a população afro-americana. O paralelo fica ainda mais evidente por conta da rima dos códigos culturais dos perseguidos, considerados socialmente inferiores pelos que, imbecilmente, acreditam na própria superioridade. Os orcs são condenados aos guetos, a trabalhos insalubres, exibindo nas vestimentas e nos trejeitos algo dos símbolos do rap de protesto, como resposta.

Todavia, David Ayer não enfatiza muito esse abismo social, deixando apenas pistas pontuais enquanto ruma ao conflito principal do filme, surgido com a notícia de que uma Varinha Mágica, artefato tão poderoso quanto perigoso, está sendo motivo de disputa entre elfos que desejam ressuscitar uma entidade maligna, conhecida como Senhor das Trevas, e seus congêneres contrários, ou seja, que os querem impedir. Desse ponto em diante, Bright cai sensivelmente de qualidade, pois, a despeito do carisma de Smith e Edgerton e da integração de seus personagens, a narrativa acaba descambando para a trilha dos longas-metragens genéricos de ação. A personalidade até então propiciada pela singularidade do enredo é esvaziada gradativamente em virtude da opção crescente por expedientes comuns, como a necessidade de salvar uma donzela em perigo, neste caso uma elfa desgarrada que porta o objeto da disputa. Tikka (Lucy Fry) quase entra muda e sai calada da história.

Não ajuda muito o caráter insosso da vilã, Leilah (Noomi Rapace), antagonista mal aproveitada como empecilho para os protagonistas alcançarem seus objetivos. Pelos rumos traçados, fica fácil perceber a existência de um insuspeito “escolhido”, outra convenção arremessa em Bright para pretensamente conferir grandiloquência aos acontecimentos. Ao abandonar o que a sua realização tinha de mais inquietante no começo, exatamente as constantes alusões ao preconceito vigente na sociedade atual, bem como a engenhosa interpenetração de imaginários distintos, David Ayer coloca o conjunto nos caminhos do ordinário, investindo prioritariamente nos embate físicos, na correria desenfreada, no assentamento de personagens em papéis bastante específicos e praticamente imutáveis. Repleto de perseguições de automóvel e de lutas corporais desprovidas de emoção, este longa é, infelizmente, um desperdício de boas ideias, embora, mesmo assim, entretenha.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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