At the Sea

Crítica


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Sinopse

At The Sea acompanha uma mulher que, após um período de reabilitação, retorna à casa de praia da família para reorganizar a própria vida. Longe da carreira que moldava sua identidade, ela precisa reaprender a conviver com o silêncio, com as memórias espalhadas pelos cômodos e com a sensação de vazio deixada pelaquilo que perdeu. Drama

Crítica

O que falta a Amy Adams, sorte ou um bom agente? Essa pergunta ecoa ao longo da sessão do soporífero At the Sea, novo longa-metragem do húngaro Kornél Mundruczó, que antes assinou o interessante Pedaços de uma Mulher (2020). Como no longa de 2020, o filme segue uma personagem que tenta se reerguer após o trauma. Laura (Adams) é uma coreógrafa, dona de uma companhia de dança, empresa herdada do pai, um grande nome da área, que retorna ao seio da família após passar cerca de seis meses em uma clínica de reabilitação para superar o alcoolismo, vício que culminou num grave acidente de carro. Voltando à casa, ela tenta reerguer seu casamento e se depara com o ressentimento de ambos os filhos. Enquanto a adolescente Josie (Chloe East) vive uma fase rebelde para punir a mãe – clichê dos clichês –, Felix, o filho mais novo, ainda criança, se mostra desacostumado com a presença de Laura e exibe as consequências psicológicas de ter estado presente no acidente que a levou à internação da mãe.

Se Amy Adams é sem dúvida uma grande atriz, ela ultimamente parece presa a papéis repetitivos em dramas domésticos pouco imaginativos, produzidos em escala industrial, ainda que porventura exibam uma roupagem de ares modernos – Canina (2024), de Marielle Heller, é um exemplo recente. Esses papéis intercambiáveis não permitem que a atriz explore a dimensão de seu evidente talento. Em At the Sea, tudo soa derivativo, principalmente os muitos planos de sofrimento feminino à proximidade da água (a protagonista ora sofre numa piscina, ora no chuveiro, ora diante do mar). Também os inserts de um trauma inespecífico de infância vão progressivamente cansando, mas não mais do que as múltiplas discussões sobre o destino da empresa de Laura, debates intermináveis que não despertam o mais vago interesse.

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Os rápidos flashbacks do passado de Laura com o pai se apoiam no arquétipo batido do grande artista como um homem necessariamente negligente com a família, um sujeito que teria proferido frases de efeito ruins, como “A arte é o caminho mais curto até Deus”. Já as sequências de dança surgem de forma mal plantada, parecendo gratuitas, ainda que a coreografia em si desperte interesse. De fato, em nenhum momento o filme consegue estabelecer de modo minimamente aprofundado a relação de Laura com a dança – e soa implausível que, apaixonada por essa arte, ela pareça disposta a abandoná-la prontamente, contrariando os conselhos de todos os colegas.

A opção de trazer um elenco de coadjuvantes mais conhecidos por interpretarem papéis cômicos (Dan Levy, Jenny Slate e Rainn Wilson) para o espaço do melodrama familiar não é capaz de tornar o desenrolar mais instigante, apesar da habilidade do trio para se adequar ao tom – não é nenhuma novidade que atores que navegam muito bem o humor consigam dominar o drama, sendo o contrário bem mais incomum. Ao longo do desenvolvimento, a sensação de filme esquecível, incapaz de deixar forte impressão na memória do espectador, vai se afirmando. A catarse final entre mãe e filha, artificial e abrupta, segue a mesma direção.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

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é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
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