Crítica

Pense em Bonnie e Clyde depois do ácido numa bad trip daquelas. Talvez você esteja perto do que Mickey e Mallory representam. Nas duas horas do filme/videoclipe de Oliver Stone, a dupla liquida a sangue frio mais de 50 pessoas enquanto deixa um rastro de sangue tão espesso quanto a gratuidade de seus atos. “Se eu não te matar, sobre o que vão falar?”, anuncia o impiedoso assassino. Para Stone, eis uma questão mais complexa do que retórica.

Os arquétipos do lixo branco norte-americano preenchem cada frame de Assassinos por Natureza numa suposta sátira à glorificação da violência. A partir de uma composição psicodélica, Stone costura um infinito de imagens saturadas, desconexas e gráficas numa narrativa visual brilhante, porém excessiva e até mesmo gratuita em conteúdo. Sem a superfície frenética, os cortes rápidos, as cores quentes e os ângulos de câmera improváveis, resta apenas um discurso banal e datado sobre a malévola mídia de massa contemporânea.

O principal equívoco em Assassinos por Natureza está na degeneração daquilo que ele próprio critica. A história original de Quentin Tarantino, um exame ácido à massificação das mídias e a exaltação do que há de pior na indústria cultural, perde seu sentido na tela por deixar de lado a contestação de crítica social e reiterar em imagens tudo o que seu discurso abomina. Demasiadamente manipulado por Stone, Richard Rutowski e David Veloz, Tarantino, inconformado, lançou posteriormente este que é seu primeiro roteiro para um longa-metragem como livro.

Apesar dos muitos pesares, Mickey e Mallory formam uma dupla carismática graças à composição assertiva de Woody Harrelson e Juliette Lewis, que parecem genuinamente empenhados em compartilhar o amor do casal e a pulsão dos mesmos em destruir todo o resto. Alguns bons coadjuvantes, como Robert Downey Jr., Tom Sizemore e Rodney Dangerfield garantem outras performances memoráveis. O último, que protagoniza uma espécie de sitcom grotesca como o pai incestuoso de Mallory, é genial no tom bizarro de seu personagem, e o próprio ator foi responsável por escrever seus diálogos.

Ainda que se ambiente no início da década de 1990, nossa cultura segue desnorteada na mesma direção calamitosa que Oliver Stone aponta em Assassinos por Natureza. No entanto, a linguagem histérica da qual ele faz uso em seu filme está mais pautada numa crise interior do que numa reflexão acurada do mundo em que vive. Enquanto cria outras obras manipuladoras como W. (2008) e As Torres Gêmeas (2006), o realizador continua contribuindo com a pilha de lixo que parece condenar.

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Conrado Heoli

é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
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