Crítica

No debate sobre o peso midiático das celebridades no mundo compartilhado pelas audiências, é tópico constante o assédio que famosos sofrem por parte de fãs – seja de forma direta, por encontros furtivos, ou de forma mediada, por meio de veículos de comunicação. Entretanto, Antiviral, de Brandon Cronenberg, reposiciona a discussão quando propõe que fãs também sofrem assédio por parte de famosos. Conforme o filme do cineasta, de tão inseridos em uma prática que valoriza o voyerismo acrítico, tendo nas celebridades seu elemento principal, fãs tornam-se dependentes de ídolos que pouco fazem além de inflacionar o star system em busca de fama. Ou seja, se existem fãs é porque existem famosos.

Em seu primeiro longa, o filho de David Cronenberg arquiteta um mundo esquizofrênico em que as audiências tornam-se tão viciadas em astros do entretenimento que acompanhar suas vidas pela mídia torna-se insuficiente. Para muitos fãs, é preciso experimentar a vida dos ídolos de forma concreta, mesmo que seja apenas uma pequena parte dela: a doença.

No filme, Syd March (Caleb Landry Jones) é funcionário de uma clínica especializada em vender vírus que infectaram celebridades para aficionados que querem contrair suas doenças. Nessa comunhão biológica, há um processo projecional contundente que se dá pela promessa de vivência da vida do outro (do famoso) em detrimento da sua (do fã) – algo muito além da atual e ingênua relação platônica das audiências com as celebridades por meio de revistas ou da TV.

Durante a venda de vírus, Syd ressalta a perfeição mais que humana, “mais que perfeita”, das celebridades, revelando a própria adoração que ele mesmo tem por ídolos do mainstream. Ao mesmo tempo, e a sua forma, Syd corrobora o discurso irônico do dono da clínica, que busca desmaterializar os famosos ao afirmar que “celebridades não são pessoas, são alucinações públicas”.

A atenção excessiva às celebridades chega a níveis insalubres quando Syd passa a traficar material virótico injetando cepas virais nele mesmo, e entregando as amostras ao mercado paralelo. A prática deixa Syd gravemente doente, infectado pelo vírus misterioso de uma superestrela. O personagem torna-se alvo de colecionadores de vírus e de mercantes ilegais. O vendedor-traficante transforma-se em uma espécie de commodity do mercado viral não pelo que é (um desconhecido), mas pelo que carrega (uma espécie de Santo Graau virulento).

Em sua curiosa trama, Brandon alinhava de forma inventiva algumas das retóricas presentes na fase inicial da obra de David Cronenberg, como a bioética e as interseções entre biologia e tecnologia, as experiências científicas radicais, as contaminações, mutações e transformações corporais, as conspirações corporativas, as identidades em conflito, o melancólico suicida e o suspense.

Apesar do bom filme de Brandon, bem conectado com o nosso tempo e criticamente posicionado, a proximidade de Antiviral à obra de seu pai pode decepcionar os fãs do mestre canadense.

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é jornalista, doutorando em Comunicação e Informação. Pesquisador de cinema, semiótica da cultura e imaginário antropológico, atuou no Grupo RBS, no Portal Terra e na Editora Abril. É integrante da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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