Crítica

Sam é uma garota como várias outras da sua faixa etária: é dona do seu próprio nariz, entra e sai da casa da família quando melhor lhe convém, sem dar muitas satisfações, tem as amigas inseparáveis na escola e aquelas que são mira de bullying e desprezo, namora um dos bonitões da turma e está determinada a perder a virgindade. Ou seja, tem muitas qualidades, e outros tantos defeitos para compensar. O que a faz diferente das outras meninas da mesma idade? Muito pouco. Ao menos não no começo de Antes Que Eu Vá, adaptação para o cinema do romance de mesmo nome de Lauren Olivier. Sim, pois a medida que a história avança, a protagonista vai tomando cada vez mais consciência de suas falhas. E decidir mudar passa a ser mais do que uma opção, afirmando-se como uma necessidade para seguir adiante. A se lamentar apenas o fato dessa mensagem, que teria tudo para ser grandiosa e transformadora, ser abordada de forma tão piegas e preguiçosa ao se reconfortar nos mesmos clichês já muito vistos em outras produções similares.

Como é possível perceber, Antes Que Eu Vá é a história de uma moça, baseado no texto de uma escritora e levado às telas por uma diretora, no caso Ry Russo-Young (Caminho para o Coração, 2012). E, realmente, há pouco espaço para os homens na trama. O pai é uma mera figura decorativa, enquanto que os dois colegas – o namorado, Rob (Kian Lawley, de Boo! A Madea Halloween, 2016), e o amigo de infância, Kent (Logan Miller, de Quatro Vidas de um Cachorro, 2017) – servem apenas como o velho e o novo interesse romântico da mocinha. Se por um lado é interessante perceber como, ao contrário das expectativas, a produção como um todo consegue se sair bem no Teste de Bechdel – no começo, só se fala dos meninos, mas logo o papo evolui para as relações entre as amigas e, até mesmo, de Sam com a própria mãe e irmã – por outro todo esse avanço é em seguida desperdiçado em um enredo circular que simplesmente se recusa em ir rumo a qualquer direção que possa resultar em algum tipo de progresso.

Isso porquê Antes Que Eu Vá nada mais é do que uma mistura de Feitiço do Tempo (1993) com Meninas Malvadas (2004). Sam vive grudada em outras três meninas: Lindsay, Ally e Elody. Se as duas últimas são meras coadjuvantes, com a primeira a coisa é mais séria, numa relação de amor e ódio – elas são as mais próximas, mas também é com quem discute nos momentos de stress. E elas possuem uma vítima em especial: Juliet, a estranha, que se esconde atrás dos cabelos desgrenhados sem falar com quase ninguém. Após uma briga em uma festa em que tudo dá errado, as quatro decidem voltar mais cedo para casa. E, no caminho, um acidente coloca um ponto final em suas trajetórias. Ou teria sido apenas o começo?

Sim, pois no instante seguinte Sam acorda no mesmo lugar e da exata forma como iniciou aquele que, em tese, teria sido seu último dia. E o que logo percebe é que está presa naquela data: 12 de fevereiro. Condenada a reviver sempre os mesmos acontecimentos, vai da rebeldia à conformidade até se dar conta que uma lição lhe está sendo ensinada. Ela precisa mudar, evoluir, olhar para aqueles ao seu lado, se entender com os familiares e amigos, descobrir novos valores e, enfim, se preparar para partir. Toda essa jornada, no entanto, é feita de modo bastante didático, longe do bom humor e da ironia afiada de Bill Murray ou da sátira precisa de Tina Fey. O tom assumido é o do melodrama, como se cada suposta reviravolta na trama tivesse o único objetivo de provocar lágrimas na plateia.

Para isso, muito se deposita nos ombros de Zoey Deutch, que é bonita de um modo comum, não artificial, o que contribui na identificação com o público-alvo. Não que seja uma revelação, mas ela consegue entregar o que dela se espera sem grandes tropeços. O problema mesmo está na mão pesada da diretora, incapaz de inserir qualquer elemento de criatividade em um enredo já muito batido. Diferente do hilário Precoce (2014), que tinha a mesma premissa e ambientação – e gatilho narrativo – porém partindo de um ponto muito mais original e ousado (o drama se passa com um garoto que volta sempre à mesma manhã cada vez que goza antes mesmo de deixar de ser virgem). Antes Que Eu Vá, por outro lado, é tão comportado e certinho que tudo que consegue emular em sua audiência são bocejos e sonolência. Previsível em um conceito cuja premissa básica deveria ser justamente lutar contra qualquer tipo de obviedade, é uma ideia reciclada que naufraga mesmo em suas ambições mais frágeis, deixando com o espectador uma única questão de fato válida: qual o motivo de tanta enrolação, se tudo o que se consegue é ir do nada a lugar nenhum?

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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