Anônimo 2

Crítica


6

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Em Anônimo 2, Hutch e a esposa Becca se veem sobrecarregados e distantes. Por isso, decidem levar os filhos para uma pequena viagem de férias, que inclui também o pai dele e avô das crianças. Quando um encontro trivial com valentões locais coloca a família na mira de uma poderosa mafiosa, Hutch vira alvo da chefe do crime mais insana que já enfrentou. Ação.

Crítica

Se o final do século XX em Hollywood ficou conhecido como a época dos grandes astros, quando bastava um nome de destaque no topo do pôster para garantir o sucesso de um filme, o início dos anos 2000 foi marcado por uma mudança nesse comportamento. Estrelas se tornaram menores frente a franquias multimilionárias, super-heróis e uma incansável insistência por remakes e continuações. É o que explica, em parte, a existência desse Anônimo 2: um olhar para o passado e uma pegada no futuro. Sim, pois sua trama não poderia ser mais genérica, concentrando sua energia na simples presença de Bob Odenkirk (quem?) como protagonista. É ele a única e simples razão de ser desse projeto – seguir lucrando em cima de um personagem que, ainda que discretamente, parece ter arregimentado para si uma legião de fãs (um círculo limitado, mas, ainda assim, existente). Ou seja, é um esforço para a volta daquela ideia de que um rosto conhecido era suficiente para fazer valer o preço do ingresso, ao mesmo tempo em que se investe em mais do mesmo, um capítulo dois que pouco se diferencia do anterior, entregando o que já se era de esperar e ousando com parcimônia apenas aqui e ali, terrenos seguros feitos para não provocar maiores alterações no todo.

Bob Odenkirk consolidou-se como coadjuvante na série Breaking Bad (2009-2013). O sucesso do personagem Saul Goodman foi tamanho que lhe rendeu um spin-off, Better Call Saul (2015-2022), que teve seis temporadas. Dono de dois Emmys e à frente de um programa consagrado, mesmo assim sua transição para a tela grande não foi fácil. Após participações em longas como The Post: A Guerra Secreta (2017) e Adoráveis Mulheres (2019), finalmente conseguiu um papel de maior repercussão: o pai de família suburbano Mitch Mansell, em Anônimo (2021). Lançado em meio à pandemia do covid-19, permanece inédito nos cinemas brasileiros, tendo chegado por aqui apenas no streaming. E ainda que o desempenho nos cinemas no resto do mundo tenha sido tímido – pouco mais de US$ 57 milhões nas bilheterias – isso representou um retorno quase quatro vezes superior ao seu orçamento. Investimento baixo e ganho garantido? Como dizer não a uma sequência, portanto? Eis, então, esse Anônimo 2, que segue apenas em parte a linha “um zé ninguém metido ao acaso em uma confusão muito maior do que ele mesmo e que, a despeito de todas as probabilidades contrárias, consegue se safar”. Afinal, ele agora está mais para John Wick do que um mero desconhecido pego desprevenido.

20250828 anonimo 2 filme papo de cinema

Cada vez mais mergulhado no submundo do crime, uma vez que herdou uma dívida gigante e se vê obrigado a aceitar novos serviços para pagar as contas e garantir que seu pescoço permaneça no lugar, Mansell logo percebe os efeitos colaterais dessa rotina: a insatisfação crescente da esposa, Becca (Connie Nielsen, que não está aqui a passeio), e um afastamento dos filhos, Brady (Gage Munroe, que quando criança participou de A Cabana, 2017) e Sammy (Paisley Cadorath, que entre o primeiro e o segundo filme fez apenas uma ponta no ainda inédito Harland Manor, 2021). A solução? Abandonar todos os compromissos – ainda que por apenas algumas semanas – e partir em férias com a família. Não precisa ser muito esperto para saber que seus problemas o acompanharão, e ao chegar na pequena cidade turística que costumava frequentar com os pais quando pequeno, Mitch descobre que o lugar está tomado pelo crime e não tardará a pisar nos calos da poderosa chefona (Lendina, um bem-vindo retorno de Sharon Stone) que comanda a região. Será ela e seu exército contra ele e mais alguns dispostos a ajudá-lo. Uma luta equilibrada, como se percebe.

Anônimo 2 entrega exatamente o que se poderia esperar de um filme como esse. Sem cachorro, memória, esposa ou filhos para vingar, Mitch Mansell tem apenas a sua honra pela qual lutar, e dela não abrirá mão. Os capangas enviados pela mafiosa servirão apenas para entreter a audiência até o confronto final, e se há uma nota de rodapé por aqui é perceber como talento, de fato, não é hereditário – Colin Hanks, filho de Tom, aparece como um xerife corrupto que em momento algum chega a gerar alguma tensão. Stone, que há anos estava afastada de produções de primeira linha, talvez não encontre aqui um caminho de volta com portas abertas, mas ao menos deixa clara a impressão de ter se divertido do início ao fim das filmagens. Enquanto isso, o diretor indonésio Timo Tjahjanto (Através das Sombras, 2024) entrega um feijão com arroz bem feito, sem maiores invencionices, que não surpreende, mas também não decepciona. E se Bob Odenkirk não chega a ser o Bruce Willis que muitos esperavam, também não há do que reclamar a seu respeito. Eis, enfim, um produto honesto em suas intenções e no que apresenta, que diante um cardápio tão árido de boas ideias como o atual, não chega a causar indigestão.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *