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Sinopse
Em Alvo da Máfia, depois de sobreviver a uma brutal tentativa de assassinato, um profissional implacável começa a repensar cada escolha que fez. Determinado a abandonar de vez o submundo que o moldou, ele descobre que sair da vida do crime é muito mais difícil - e perigoso - do que imaginava. Ação/Crime.
Crítica
O mais triste em Alvo da Máfia talvez nem seja a direção amadora, as atuações canhestras, o roteiro previsível, os diálogos redundantes ou cenários que parecem improvisados com cartolina e papelão. O desespero mesmo está no próprio título original, o minimalista Bang, que nada mais é do que o apelido do protagonista interpretado (se é que tal termo a ele pode ser aplicado) por Jack Kesy. Afinal, para bom entendedor, meia palavra basta: com um batismo como esse, está implícita também a vontade de fazer deste apenas o primeiro de uma série, o piloto de uma nova franquia de ação policial. Apresenta-se agora o personagem principal e trate de desdobrá-lo em outras aventuras nos capítulos seguintes. O pior de tudo é que talvez tal estratégia tenha dado certo. Pois não se trata de um projeto milionário com orçamentos inflacionados. Pelo contrário, tem-se aqui uma produção vagabunda e corriqueira, feita para consumo imediato com dois vinténs, uma jujuba e talvez um vale-transporte no final – brincadeiras à parte, o orçamento oficial não foi revelado, mas é evidente se tratar de algo low-budget, por assim dizer. Assim, com as expectativas em baixa, qualquer notícia positiva é lucro. E com o sucesso alcançado após a chegada nas plataformas de streaming, não causará espanto se em breve continuações igualmente descartáveis surjam no horizonte.
O amontoado de clichês reunidos é tamanho que melhor teria sido seguir pelo caminho da comédia escrachada, entre a paródia e o deboche, o que ao menos livraria o resultado final de soar como um desastre involuntário. Não por acaso o diretor tailandês Wych Kaosayananda iniciou sua carreira artística em Hollywood assinando apenas como “Kaos”, termo esse que resume bem seus esforços por detrás das câmeras. Seu trabalho de estreia nos Estados Unidos, o thriller Dupla Explosiva (2002), estrelado por Antonio Banderas, já dava a pista de como ele seguiria se comportando artisticamente pelas décadas seguintes. Tolerância Zero (2015), com Scott Adkins, e Uma Noite em Bangkok (2020), com Mark Dacascos, enterraram quaisquer expectativas por melhoras. Dessa vez tratou de escolher como ponta de lança de uma história sem pé nem cabeça o ainda mais inexpressivo Jack Kesy, um brutamontes até então percebido discretamente em elencos notórios por muitos músculos e poucos cérebros como os de 12 Heróis (2018) e Posto de Combate (2019). O que fizera de melhor até então foi ter envergado os chifres e a vermelhidão proporcionada por muita maquiagem de Hellboy e o Homem Torto (2024), a adaptação do anti-herói criado por Mike Mignola de menor repercussão tanto junto ao público, quanto com a crítica.

Pois bem, como toda essa digressão preparatória já se encarregou de explanar, Kesy é ninguém menos do que Bang, um assassino de aluguel impiedoso e certeiro. Ele é o braço direito de um chefão da máfia local que nele deposita sua total confiança. Porém, quando cai em uma armadilha preparada por inimigos que querem vê-lo morto, vai parar no hospital e se vê obrigado a passar por um transplante de coração. E é agora que a diversão começa (sqn): o bandidão incapaz de mostrar os dentes em um sorriso recebe o órgão vital de um pai de família bondoso e à espera do primeiro filho ao lado da jovem esposa. Em uma mistura de novela mexicana, soap opera matutina e tramas rocambolescas à lá Gloria Perez, assim que se recupera o até então inabalável Bang se vê questionando suas próprias convicções. Irá se aproximar da viúva, demonstrará preocupação com a criança recém-nascida e passará a questionar as ordens recebidas, tratando não de eliminar os desafetos do chefe, mas salvá-los de futuros atentados, fingindo suas mortes e escondendo-os distante do alcance de outros assassinos como ele.
Entre uma personalidade e outra, nenhuma nuance se faz presente: é como se Bang tivesse recebido um transplante psicológico, e não de um pedaço físico do seu corpo. Kesy é tão inexpressivo que em qualquer situação em que seu personagem se encontra suas reações se mostram exatamente as mesmas, confirmando ser incapaz de transitar entre os sentimentos mais básicos como paixão, desejo, angústia, raiva ou revolta. Entre tiroteios desprovidos de qualquer tipo de coreografia que mais parecem rascunhos inacabados que nem Jason Statham teria coragem de levar adiante e cenários que aparentam terem sido improvisados de última hora tamanha é a fragilidade que demonstram diante de qualquer impacto, há também uma carência de ambientes – há dois ou três por onde se passa quase que a totalidade da história – e um absoluto desinteresse por motivações minimamente críveis. Todos os personagens em cena reagem apenas por instinto, sem reflexões, análises ou estratégias. E para piorar a situação há ainda um ressuscitado Peter Weller – que também já viveu dias melhores por trás de uma máscara em RoboCop: O Policial do Futuro (1987) – fazendo às vezes de Don Corleone com um italiano macarrônico e uma nítida preguiça de emprestar qualquer tipo de carisma a um tipo pensado para roubar a cena, mas tudo o que consegue é resvalar nas mesmas obviedades dos demais. Alvo da Máfia é um tiro certeiro na mediocridade, e se há quem aplauda esse tipo de proposta, o certo é que tal ato fala mais da audiência do que da obra.
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