A Voz de Hind Rajab

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Sinopse

A Voz de Hind Rajab acompanha uma noite de terror em Gaza, quando uma ligação de emergência desencadeia uma corrida contra o tempo para salvar a personagem-título, uma criança de apenas seis anos presa em um carro em meio ao fogo cruzado. Em contato constante com a menina, voluntários do Crescente Vermelho tentam coordenar um resgate quase impossível, enfrentando obstáculos extremos enquanto a violência ao redor ameaça interromper qualquer esperança de socorro. Drama.

Crítica

Era apenas um fiapo de esperança. Um suspiro, um pedido de socorro enviesado, uma tentativa quase nula de ajuda. Mas, ainda assim, algo que valia a pena seguir em frente. Afinal, era uma vida. E diante de tantas perdas, um é bastante para fazer diferença. Em A Voz de Hind Rajab, o desespero daquela que sobreviveu é suficiente para que uma multidão entenda não apenas o seu drama, mas de tantos que, como ela, também se viram abandonadas, perdidas, simplesmente deixadas para trás. Porém, mais do que isso, há também uma aula de cinema em curso. O que a diretora tusinina Kaouther Ben Hania alcança é um feito de raras proporções, algo compreendido não apenas pelo que se vê em cena – e é preciso ter paciência até o último minuto, pois cada reviravolta revela ao espectador novas camadas de entendimento – como também diz muito a respeito do esforço empreendido nos bastidores para que essa história fosse não apenas ouvida, mas percebida tal qual ela agora se apresenta. Eis, portanto, uma obra dotada de múltiplas camadas de acesso, tanto pelo que entrega de forma visível e aberta, mas ainda por tudo que acumulou e consigo carrega nessa jornada até sua conclusão. Uma dor dilacerante, mas acima de tudo, necessária.

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Ben Hania pode ser um nome não muito popular, mas deveria, ao menos entre os cinéfilos mais atentos. Pois por A Voz de Hind Rajab ela está concorrendo ao Oscar não pela primeira vez, nem mesmo numa segunda incursão, mas pelo terceiro ano. Sua estreia na maior festa do cinema mundial se deu em meio à pandemia do covid-19, quando O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) foi indicado como Melhor Filme Internacional, tendo sido também a estreia da Tunísia nessa categoria. Três anos depois, voltou a ter uma produção sua considerada, tendo inclusive se qualificado para a shortlist, mas falhou em aparecer como finalista. No entanto, As 4 Filhas de Olfa (2023) conseguiu mesmo assim uma indicação, porém em outra disputa, dessa vez na de Melhor Longa Documentário. Se estes dois trabalhos já seriam suficientes para justificar um interesse mais demorado sobre cada novo projeto da cineasta, o que ela apresenta dessa vez a colocou num patamar ainda mais elevado. Não apenas pela trama em si. Mas, principalmente, pela habilidade que demonstra em combinar realidade com ficção, fazendo uso de uma para enaltecer a força da outra. E, assim, resultar em algo de apelo único e, ao mesmo tempo, universal.

Depois de estrear direto na mostra competitiva principal do Festival de Veneza – de onde saiu com nada menos do que nove troféus, entre eles o Grande Prêmio do Júri Oficial (tipo uma medalha de prata) – A Voz de Hind Rajab despertou uma curiosidade para si que plenamente se confirma pela excelência alcançada em cena. A trama é simples e se passa quase que praticamente em um único ambiente. Em um centro de voluntários que prestam socorro a chamados de emergência na Faixa de Gaza, uma ligação nada extraordinária avisa que uma família pode estar em perigo. Um homem na Europa informa que parentes seus estariam atravessando de carro pela região quando foram alvejados por militares do exército israelense. A dúvida se haveria ou não sobreviventes logo se dissipa quando um lamento é escutado. Uma menina, a sobrinha mais jovem, está viva. Em meio aos corpos dos falecidos. De uma tia, de primos, do tio que conduzia o veículo. Um ambiente familiar que fora destruído em segundos. E apenas a menina permanece como lembrança de que algo ainda pode ser feito.

Tudo o que os socorristas precisam fazer é resgatá-la. Mas como atender a esse pedido tão simples em meio a uma zona de guerra? A burocracia, os entraves e negociações, a política de acordos e acertos prévios, o medo de que algo dê errado e o receio pela vida daqueles que se colocariam em risco, tudo passa a pesar numa mesma balança. Nessa que, no lado oposto, resiste uma criança indefesa, deixada sozinha e sem com quem se apoiar ou defender, a não ser uma ligação telefônica que serve também como única comprovação de sua insistência em permanecer viva, atenta, resistente. Em menos de 90 minutos de duração, a diretora demonstra destreza em lidar com as expectativas da audiência. Ela também precisa colocar em evidência a cautela daqueles no outro lado da linha, por meio de discussões que tanto expõem o tamanho do imbróglio no qual todos ali parecem afundados até o pescoço, como o tanto de sangue frio e preparo que se exige em situações como essa aqui descrita. Afinal, são em momentos como esse em que a diplomacia e o autocontrole podem alterar um contexto por completo em questão de segundos, literalmente representando a vida de uns e a morte para tantos outros.

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Não só impressiona a fidelidade da narrativa com os fatos – muito disso verificado não apenas em inserções dos personagens factuais durante os créditos de encerramento, mas também no decorrer dos acontecimentos por meio de uma edição engenhosa e incrivelmente sutil – como também o uso do registro real da vítima em questão em todos os diálogos aqui representados. A encenação, portanto, está em apenas um lado desse espectro – no outro, é a realidade que se impõe, tal qual ficou registrada nas gravações remanescentes. A Voz de Hind Rajab fala tanto desse grito calado como também dessa personagem identificada no título do filme, uma dentre milhares que permitiu que o seu desespero não tivesse sido em vão. Não mais, portanto, esquecida. Aqui, a arte cumpre seu papel de multiplicar a denúncia e transformar a incredulidade e o desamparo em uma ferramenta de mudança e chamado à verdade. Não apenas, mas também, pelo muito que se vê – e se ouve – em cena. Mas, acima de tudo, por tudo aquilo que permanece e continua após o acender das luzes.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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