A Mulher Mais Rica do Mundo
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Thierry Klifa
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La femme la plus riche du monde
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2025
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França / Bélgica
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em A Mulher Mais Rica do Mundo, conhecemos a beleza, inteligência e poder de Marianne Farrère. E também um escritor-fotógrafo: com ambição, insolência e loucura. Um raio de paixão os arrebata. Em paralelo, uma herdeira desconfiada luta para ser amada, um mordomo vigilante sabe mais do que diz e uma guerra se instala. Comédia/Drama.
Crítica
A Mulher Mais Rica do Mundo, novo projeto de Thierry Klifa, parte de nomes ficcionais para reencenar um dos episódios mais intrigantes da recente história francesa. Inspirado no célebre Caso Bettencourt – que envolveu a herdeira da L’Oréal, a veterana Liliane – o longa equilibra drama com nuances de comédia para revisitar uma teia de interesses, poder e manipulação. O curioso é que o público sequer precisa saber que tudo aquilo existiu de verdade: a encenação é tão aberta em suas sugestões que a própria narrativa parece sussurrar ao espectador que há algo real por trás do verniz. E não fosse a presença magnética de suas duas estrelas, o resultado poderia ser bem menos envolvente.

O caso original, ocorrido nos anos 2000, girou em torno das acusações de Françoise Bettencourt Meyers contra o fotógrafo François-Marie Banier. Segundo ela, ele teria se aproveitado da fragilidade emocional da mãe, Liliane, para obter presentes milionários – quadros, apólices, imóveis, quantias vultosas de dinheiro. A denúncia abriu investigação que atingiu até o governo Sarkozy. Um fenômeno midiático que reuniu celebridades, políticos e a fortuna de uma das famílias mais poderosas da Europa.
Aqui, Liliane se torna Marianne, interpretada pela sempre precisa Isabelle Huppert, enquanto Banier vira Fantin, vivido por Laurent Lafitte. É esse duo que sustenta o longa com vigor. Isabelle encontra aqui terreno confortável, explorando uma mulher altiva, dona de si, mas que esconde lacunas emocionais. Há ecos de A Professora de Piano (2001), ainda que sem qualquer conotação sexual: a mesma rigidez aparente que, ao menor descuido, revela vida interior frágil. E é justamente nessa brecha que Fantin entra, ocupando espaço que nem ela sabia que existia.

E quando ele entra, o filme acende. Lafitte constrói personagem de afetos flamejantes, mas raciocínio frio. Fantin é sedutor pela imprevisibilidade: um artista que domina conversas sobre moda, música e artes plásticas, que fala sem medir consequências e exibe sua sexualidade como afirmação de liberdade. Para Marianne, ele surge como um sopro de ar fresco: excêntrico, vibrante, irreverente. Um corpo estranho dentro de universo engessado pelo dinheiro e pelas aparências. Ao aproximar essas duas forças tão distintas, Klifa encontra sua melhor dinâmica – e por algum tempo, parece ter um filme gigante nas mãos.
Mas essa promessa não dura até o fim. Quando tenta abarcar todas as ramificações do caso real – cada denúncia, cada capa de jornal, cada personagem que orbitou o escândalo – Klifa se distancia justamente do que dava vitalidade ao longa: a relação pulsante entre Marianne e Fantin. Ao trocar o estudo de personagens por uma reconstituição quase documental, o diretor dispersa o foco, esfria o calor inicial e dilui a força emocional que vinha construindo.

A Mulher Mais Rica do Mundo permanece obra instigante enquanto se apoia na intensidade de sua dupla central, sustentado pela presença magnética de Huppert e Lafitte, que fazem a narrativa parecer destinada a algo maior do que realmente alcança. Do meio para frente, o caminho se torna irregular, mas nunca desastroso: Klifa mira alto, nem sempre acerta, porém entrega um retrato de ambições e afetos que encontra verdade justamente no encontro entre solidão e mistério disfarçadas de poder.
Filme visto durante o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.
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