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Em A Morte Passou Perto, em Nova York, um lutador de boxe conhece uma dançarina quando esta é atacada por seu patrão e amante. Este acontecimento acaba provocando o envolvimento dos dois, mas o amante preterido, dominado pelo ciúme e pelo ódio, manda matar seu rival. Entretanto, em virtude de um equívoco, os capangas matam o empresário do lutador. O casal, vendo que corre perigo, tenta deixar a cidade para sempre. Suspense.
Crítica
Um exercício interessante para aprender sobre cinema consiste em assistir às primeiras obras de diretores consagrados. Além de conhecer melhor a filmografia do cineasta, a experiência permitirá discernir aqueles elementos que estão presentes em seu estilo desde os primórdios e que não se perderam com o tempo e as eventuais fama e comercialização de seu trabalho. Com Stanley Kubrick, a experiência só se torna mais interessante, já que se trata de um dos diretores mais emblemáticos do século XX. Conferir seu A Morte Passou Perto, um noir de 1955, permite entrever, já no segundo filme da carreira do diretor, elementos que depois se tornariam gravados pra sempre na memória de cinéfilos em diversos clássicos.
O filme abre com o pugilista Vincent (Frank Silvera) numa estação de trem em Nova Iorque, falando sobre escolhas na vida. A partir daí, somos jogados em um enorme flashback que conta como o personagem foi parar ali, incluindo um sombrio passado recente. Seu périplo tem tudo a ver com Gloria (Irene Kane), sua bela vizinha.
Em primeiro lugar, é importante notar que a força do estilo de Kubrick no filme talvez se deva, em grande parte, à quantidade de papéis assumido pelo cineasta na obra. Além de roteirista, ele produz, dirige, monta e fotografa o filme. Ou seja, mesmo que para um “iniciante”, o controle de Kubrick sobre o produto final era tamanho que não seria difícil deixá-lo com a “sua cara”, ainda que sob pressão dos grandes estúdios da época.
A Morte Passou Perto é de 1955 e, ver a Nova Iorque da época retratada na tela – e não reconstruída, como muito ocorre hoje – é um dos maiores baratos do longa. Figurinos e penteados completam o charme, que culmina numa Time Square de luminosos que parecem saído de gravuras.
E a forma como Kubrick fotografa tudo, num preto e branco perfeitamente adequado ao clima do filme, torna o filme ainda mais delicioso. Ângulos inusitados, uso inteligente de espelhos e janelas e distorções faciais por meio de refrações é apenas um pouco do que se pode esperar. A cena em que o protagonista observa seu peixinho no aquário, por exemplo, parece um prenúncio aos astronautas “envidraçados” de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). O longo plano-sequência de abertura nos faz dialogar diretamente com aquele que abre Laranja Mecânica (1971), na Leiteria Korova. E o jogo de luz e sombra, trabalhado à exaustão e cuidadosamente, especialmente em cenas de tensão, já sugere que Kubrick, um dia, faria miséria usando apenas luz de velas em Barry Lyndon (1975).
O diretor também já mostra talento farto em não fazer planos vazios e tudo no filme é repleto de significado. Detalhes como uma carta de baralho ao lado da cabeça de um personagem caído são preciosos para aproveitar o filme como um todo e não apenas sua trama. Uma curiosidade é notar a influência da época na produção: Janela Indiscreta (1954), clássico de Hitchcock, é do ano anterior e a referência a ele nas cenas iniciais é mais do que direta. Levando em conta o estilo do filme, dá pra imaginar que foi algo como fazer filmes de vampiro após o sucesso da Saga Crepúsculo. Ou seja: aderir a tendências que são sucesso entre o público não é uma prática atual e nem representa uma crise de criatividade do cinema. A diferença é que, no caso de Kubrick, o interesse comercial era colateral ao criativo, o que já não parece valer para certas produções que lotam cinemas de shopping.
O elenco também é bem aproveitado, especialmente Silvera. Considerado negro nos Estados Unidos (embora tenha a pele bastante clara), o ator talvez possa ser considerado o único galã não-branco em filmes noir. Mais uma ousadia, por assim dizer, que Kubrick fez questão de acrescentar à sua lista.
Simples e direto (o filme tem pouco mais de uma hora), A Morte Passou Perto equilibra entretenimento de qualidade e uma consciência rara do uso da linguagem cinematográfica de forma plena. Um talento reservado aos maiores gênios do cinema, entre os quais Kubrick guarda lugar cativo.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Dimas Tadeu | 8 |
| Ailton Monteiro | 7 |
| Alysson Oliveira | 8 |
| MÉDIA | 7.7 |




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