Crítica


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Sinopse

Por sete anos, o cineasta Aly Muritiba trabalhou em uma prisão. Lá ele fez parte da Equipe Alfa. Após estudar cinema e dirigir alguns curtas-metragens, voltou ao seu antigo trabalho para reencontrar seus colegas e realizar um filme sobre o cotidiano do local. A Equipe Alfa é formada por 28 pessoas, homens e mulheres de origens e formações distintas que fazem a guarda e custódia de cerca de mil criminosos numa penitenciária brasileira.

Crítica

O contato da maioria da população com o complexo universo carcerário brasileiro se dá de maneira absolutamente impessoal, geralmente por meio de matérias jornalísticas marcadas por estatísticas e, não raro, bastante distantes das várias minúcias. Antes de enveredar pelas sendas da Sétima Arte, o diretor Aly Muritiba foi agente penitenciário. Tal experiência pregressa, por certo, facilitou seu trânsito, então enquanto criador cinematográfico, pelos corredores estreitos da prisão paranaense onde outrora trabalhou. A primeira das muitas qualidades de A Gente é exatamente a sensação de proximidade, a predominante invisibilidade da câmera durante o registro de uma rotina repleta de meandros. Jeferson Walkiu, novo chefe da inspetoria, um dos profissionais mais proeminentes da Equipe Alfa, é alçado ao protagonismo do documentário, agindo como nosso condutor pelas sinuosidades de um sistema marcado por particularidades e debilidades bastante sintomáticas do caos reinante.

Em A Gente, acompanhamos a atuação cotidiana de Walkiu e de seus companheiros, como visitantes de um ambiente estranho, embora este conserve demandas bem similares às de todo organismo dependente do bom funcionamento de seus diversos órgãos. Há flagrantes determinantes, como a conversa fortuita entre um agente e o encarcerado que reivindica auxílio médico. Nesse instante, prevalece a ordem – e sua mediadora, ora boa, ora contraproducente, a burocracia – para além dos anseios estritamente humanitários. Longe de apontar certos ou errados, Muritiba, assumindo mais que a simples postura de observação, deflagra um dissenso importante. O apenado brada por atendimento, reclamando da morosidade dos trâmites. O servidor público, por sua vez, se aferra aos protocolos, sabendo da necessidade deles para dirimir um pouco o pandemônio à espreita. Voltando a Walkiu, ele é abordado como um sujeito justo, que não mede esforços para azeitar todas as enferrujadas engrenagens.

Um dado curioso é o deslocamento do olhar à vida privada do protagonista, mais propriamente à sua função como homem de fé. Ele é visto abençoando fieis numa igreja evangélica, pregando a palavra de Deus, ou seja, ministrando fora do ambiente prisional. Esse expediente confere mais camadas ao personagem, ampliando a nossa compreensão acerca dele. Isso também instaura um possível paradoxo cuja riqueza não é explorada frontalmente por Muritiba. O que para o agente são simplesmente crimes, passíveis das punições previstas nas leis vigentes, ao pastor soam como pecados, ou seja, deslizes prontos ao perdão desde que haja arrependimento. Visões distintas, a primeira, pragmática, a segunda, dogmática. Todavia, A Gente está realmente mais preocupado em expor a difícil realidade enfrentada por aqueles cuja rotina envolve toda sorte de adversidades, como a falta de algemas e de chaves às mesmas, a discrepância das dinâmicas internas e a negligência quanto aos anseios da classe.

Prioritariamente circunscrito aos espaços exíguos da penitenciária, A Gente é um documentário incisivo, mas sem a menor vocação ao panfleto. Aly Muritiba consegue extrair de instantes banais o sumo da dura situação pela qual passam os homens e mulheres (embora apareçam somente homens) que se encarregam do funcionamento dos cárceres. As denúncias surgem, assim, nas entrelinhas, organicamente. Walkiu pena para garantir a operacionalidade do local, contra ordens superiores estapafúrdias, ameaças internas e externas de rebelião, além da própria dificuldade de motivar a sua equipe. O componente humano é desafiado pelos ditames de um poder público displicente que se move apenas quando a mão de obra decide se insurgir, questionando a ausência de condições laborais. Walkiu é encarado, na congregação e na cadeia, como alguém querendo perpetuar o bem. Contrapondo sua resiliência, instituições corrompidas. O filme é um elogio à ética pessoal como forma de resistência.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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Grade crítica

CríticoNota
Filipe Pereira
5
MÉDIA
6.5

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