Crítica


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Sinopse

A educação da jovem virgem Eugénie se dá através de aulas práticas e teóricas de libertinagem. Após o período de aprendizado, a mãe da garota chega à alcova de Juliette para tentar resgatá-la das mãos dos libertinos. Nesse momento, ela é controlada por Dolmancé e Juliette como uma vítima perfeita, e a última aula é finalmente dada.

Crítica

A primeira cena mostra um curioso e inquieto foco de luz quebrando parcialmente a escuridão, revelando mais que corpos apenas nus, pois é plena a atividade sexual. Pênis eretos e vaginas sendo penetradas explicitamente por vibradores estão entre os fragmentos iluminados. Em tempos de discussão social sobre a nudez enquanto elemento artístico, com, de um lado, os conservadores ofendidos e, do outro, os perplexos com o escândalo que o corpo humano ainda provoca em algumas pessoas, A Filosofia na Alcova assume e celebra o libertário. Baseado num romance do Marquês de Sade publicado clandestinamente em 1795, o longa-metragem de Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vázquez apresenta uma desbragada negação da tradição calcada na castidade, apregoada por educações essencialmente religiosas, assim fazendo jus às ideias de Sade. Enquanto aristocrata, o escritor refletiu de maneira vanguardista sobre as estruturas que, primeiro, concedem lugares de poder e, segundo, os solidifica.

A Filosofia na Alcova é um derivado direto da peça encenada com sucesso estrondoso pelo grupo Os Satyros. A proposta dos diretores conserva o elo com o teatro, haja vista as interpretações não naturalistas e a cenografia que mescla habilmente elementos do século XVIII e signos da contemporaneidade, como carros e telefones celulares. Contudo, não há uma subserviência venosa, uma vez que a câmera toma para si a função de potencializar o torvelinho de sensações sobrevindas à interação das pessoas num cenário concebido para abrigar a libertinagem como filosofia de vida. O longa-metragem não fica, portanto, subordinado imageticamente ao registro formal pertinente aos palcos, possuindo uma dinâmica narrativa híbrida e, por isso mesmo, instigante. A trama dá conta da educação da jovem Eugénie (Bel Friósi), recém-saída de um convento, filha de um pai secretamente libertino e de uma mãe carola, por conseguinte, castradora de seus desejos mais profundos.

Madame Juliette (Stephane Sousa), mulher tão voluptuosa quanto ciente da força do sexo como estandarte de um pensamento contraposto as doutrinas dogmáticas da Igreja, toma para si o cargo de tutora da menina, incitando o igualmente lascivo Dolmancé (Henrique Mello) a fazer parte desse jogo erótico de iniciação. Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vázquez ressaltam a luxúria como um meio de quebrar o vínculo com os arcabouços de dominação. O texto do Marquês de Sade é valorizado pela forma como os atores o empostam, ganhando visceralidade por conta da encenação. O despudor é uma constante no filme. Há inúmeras sequências de coito, masturbações, em suma, de práticas que atendem apenas aos desígnios do desejo dos personagens, nada mais. A Filosofia na Alcova é uma bem-vinda afronta aos posicionamentos retrógrados, infelizmente vigentes, insistentes em envergonhar-se da busca por prazer. Nesse sentido, é estimulante aqui complementariedade entre forma e conteúdo.

A entrega dos atores em cena é evidente. Bel Friósi, por exemplo, sai excepcionalmente da posição de menina inocente, embora de olhar curioso ao mundo prestes a se descortinar em sua frente, à dimensão libertina oriunda das interações humanas, mais especificamente, das carnais que vivencia. Já Henrique Mello e Stephane Sousa expõem esse ímpeto de torcer as convenções, oferecendo seus corpos de templos aos desígnios do querer encenado. A Filosofia na Alcova é uma realização corajosa, de cujos poros transpira a exaltação do sexo como força natural, rechaçando, em semelhante medida, sua pecha pecaminosa. A profusão de corpos nus, de genitálias à mostra, é apenas uma ferramenta, expressiva, sem dúvida, dentro desse itinerário proposto a deflagrar a carolice de uma sociedade voltada à consolidação de certos grupos dominantes, negligente quanto à imponência da individualidade. Nesse percurso singular e audacioso, a inocência é considerada, assim como toda “virtude”, uma instância de alienação.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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