Crítica

A primeira pergunta é: por quê? Qual a razão de se fazer uma versão jovem e atualizada do clássico A Bela e a Fera? Simplesmente não há resposta cabível para isso. E essa ausência de justificativas fica ainda mais estarrecedora diante a exibição de A Fera, uma obra desprovida de qualquer atrativo razoavelmente interessante. A única e qualquer intenção por trás dessa produção é potencializar os nomes dos dois protagonistas, Vanessa Hudgens e Alex Pettifer. Ela vem da trilogia High School Musical (2006, 2007 e 2008), enquanto que ele era até então mais conhecido como o adolescente de Alex Rider Contra o Tempo (2006). Com o fracasso dessa experiência juntos, ele vem se saindo melhor: marcou presença neste ano ainda em Eu Sou o Número Quatro (2011) e O Preço do Amanhã (2011), enquanto que tudo que ela fez foi o insuportável Sucker Punch: Mundo Surreal (2011).

É curioso analisar estes rumos posteriores, pois A Fera se esforça o tempo inteiro em oferecer destaque à ela, apesar da produção ser inteiramente calcada no personagem dele. Ela é o primeiro nome nos créditos, é a esquisita do colégio e a que sofre perigo pelo comportamento irresponsável do pai. Mas aquele que dá nome ao título do filme é ele, um jovem rico, mimado e arrogante que sofre uma maldição e tem seu rosto desfigurado. Se torna um monstro, passando a viver isolado, distante de tudo e todos, tendo como companhia apenas uma governanta (Lisa Gay Hamilton, que já viveu dias melhores em filmes como o distante Jackie Brown, 1997) e um tutor (Neil Patrick Harris, estrela do seriado How I Met your Mother e do campeão de bilheteria Os Smurfs, 2011). A única forma de se curar é encontrando o verdadeiro amor, alguém que o ame pelo que é, e não pelo que aparenta. Para isso possui um ano, segundo a bruxa interpretada por Mary-Kate Olsen, uma das populares irmãs gêmeas Olsen.

Ou seja, a trama é idêntica à de A Bela e a Fera, e qualquer um que tenha uma mera noção do clássico conto infantil não irá se surpreender em nenhum minuto. Sem ousar nem surpreender, tudo o que nos resta é o carisma dos protagonistas – e esse elemento é praticamente inexistente. Hudgens é falsa do início ao fim, inconsistente em cada reação e sem despertar a menor empatia pelo drama enfrentado. Já o rapaz é um pouco melhor, mas sofre principalmente por não conseguir desenvolver a menor química com a garota. O diretor Daniel Barnz, também autor do roteiro, constrói um enredo tão absurdo, repleto de diálogos inconsistentes e patéticos, que tudo o que nos resta é chorar de desânimo. A ambientação mágica e sobrenatural do início da história não se sustenta, e o desenrolar é carente de maiores atrativos.

A Fera só não se saiu pior pois foi muito barato, inclusive para os padrões hollywoodianos, e conseguiu se pagar nas bilheterias locais – custou US$ 17 milhões e arrecadou quase US$ 30 milhões. Tendo estreado nos Estados Unidos em março de 2011, levou quase um ano para chegar por aqui, e deve passar correndo sem deixar saudades. O que resta como única impressão positiva é a presença de Patrick Harris, que mais uma vez se destaca como coadjuvante, aproveitando para pequeno espaço que lhe oferecem. Que percebam logo o potencial dele e lhe ofereçam algo maior e na medida do seu talento. Afinal, não será participando de desastres como esse que qualquer um dos envolvidos conseguirá se firmar como astro.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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