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Sinopse
Em A Conspiração Condor, em 1976, a jornalista Silvana passa a investigar as mortes de dois ex-presidentes brasileiros, cercadas por suspeitas e versões conflitantes. Ao aprofundar a apuração, ela se depara com interesses ocultos e coloca a própria segurança em risco. Drama/Jornalismo.
Crítica
O cinema brasileiro parece ter ‘redescoberto’ o período da Ditadura Militar que (des)governou o país entre 1964 e 1985. Os recentes sucessos de público e de crítica – inclusive com um Oscar – de Ainda Estou Aqui (2024) e de O Agente Secreto (2025) estimularam, obviamente, outros realizadores a se debruçarem sobre essa época nefasta. No entanto, algo que costuma passar desapercebido é que tanto o filme de Walter Salles, quanto – e principalmente – o de Kleber Mendonça Filho não abordam diretamente as causas e motivações que levaram a instauração do golpe que derrubou um presidente democraticamente eleito, mas, sim, suas consequências em cidadãos relativamente comuns, não diretamente envolvidos com a resistência e seus embates mais violentos. André Sturm até se esforça para percorrer este mesmo caminho em A Conspiração Condor, mas a própria escolha deste episódio em específico dificulta – e muito – tal tarefa. Afinal, a teoria, por muitos até hoje apontada como paranoica – ainda que baseada em fatos mais do que comprovados – dizia respeito diretamente a uma intervenção dos militares para eliminar políticos populares resistentes às medidas que estavam sendo praticadas. O ocorrido, portanto, merece o resgate. Porém, não exatamente da forma como aqui se apresenta.

Não é a primeira vez que um realizador nacional decide abordar este caso. Duas décadas atrás, Roberto Mader, até então conhecido por seu trabalho como ator em Faca de Dois Gumes (1989) ou por ter sido um dos produtores de Mauá: O Imperador e o Rei (1999), estreou como cineasta com o documentário Condor (2007), obra que tinha como proposta justamente relatar, agrupar e analisar os eventos que deram origem a essa ideia de uma ação conjunta dos governos militares do Cone Sul para assassinar opositores políticos. Ali, não apenas a abordagem era baseada numa extensa pesquisa, como também se mostrava abrangente em suas repercussões e envolvidos, indo além do Brasil e passando pelo Chile, Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai. O resultado foi aplaudido pela crítica e imprensa especializada, tendo sido premiado no Festival do Rio e indicado ao Prêmio Grande Otelo, concedido pela Academia Brasileira de Cinema. Diante agora dessa versão ficcional do mesmo incidente, difícil imaginar que tal recepção se repita.
E não por A Conspiração Condor ser um filme ruim. Ele está mais para inócuo, é verdade. É como se os pontos estivessem nos lugares certos, mas faltou aquele algo a mais capaz não apenas de conectá-los, mas de ir além, elevando-os do lugar-comum que muitas tentativas como essa acabam por se demorar. Uma vez que sua estrutura foi elaborada de forma cronológica, sem fazer uso de originalidades narrativas – o que, se não impressiona pelo corriqueiro, também não assume riscos que poderiam ter dado errado – o roteiro se mostra acanhado em seus desdobramentos, frágil em suas bases e inconstante com o desenrolar de cada reviravolta proposta. A protagonista é uma jornalista cuja função é preencher a coluna de fofocas do jornal, mas que quase ao acaso acaba por se deparar com um assunto mais sério e perturbador. Silvana, personagem de Mel Lisboa, é eficiente em demonstrar sua inquietação profissional. No entanto, surpreende – e não de forma positiva – a naturalidade com que alguém acostumado a lidar com questões amenas abraça sem ressalvas uma possibilidade mais trágica e complexa. Sua falta de problematização relativa ao potencial do tema que está prestes a revelar enfraquece a credibilidade do conjunto.
Mas Lisboa, sempre se mostrando vívida e curiosa frente a cada nova conversa ou descoberta, seja ela a morte de um ex-presidente ou uma receita de bolo, não está sozinha. Dan Stulbach, como o correspondente estrangeiro que pode – ou não – ter outros interesses ao se aproximar dela é tão evasivo em seus movimentos que sua passagem pelo filme termina do mesmo como começou: gratuita e sem ter influenciado nada de concreto. Quem se sai melhor é Maria Manoella, direta em sua postura, assumindo cada tendência que se vê sujeita e abraçando tanto esse, quanto aquele propósito, revelando uma complexidade que se encaixa bem em um debate que merecia maior profundidade. Nilton Bicudo é outro ponto positivo do elenco, mantendo-se como um mistério em mais de uma camada de leitura – profissional, afetivo, íntimo, familiar, sexual – o que enriquece a discussão. Mas mesmo com elementos ricos como esses a serem desenvolvidos, Sturm opta por perder tempo com citações mais chamativas, seja um Pedro Bial como cosplay de Carlos Lacerda ou, para piorar ainda mais o quadro, uma inserção do próprio diretor em uma versão estereotipada de um crítico de cinema (estaria ele se antecipando às avaliações que o longa em curso acabaria por receber no futuro?).

André Sturm e seu co-roteirista, Victor Bonini, esse estreante na função, deixam claro estarem mais interessados no potencial de thriller da história que estão contando e menos no impacto político e no contexto social no qual tal trama está ambientada. Tanto a trilha sonora como a montagem privilegiam esse tipo de olhar, que até poderia ter alcançado excelência, não fosse o viés comedido pelo qual escolhem sustentar o discurso. Não se dão “nomes”, é tudo por demais conjecturado, faltando referências imediatas e acusações sólidas – algo que o doc acima citado continha de sobra. Perde-se tempo, assim, com possibilidades, ao mesmo tempo em que enfraquece o alcance histórico que um título como esse poderia ter almejado. Tal como se apresenta, A Conspiração Condor termina por se confirmar menor do que o conjunto ao qual dedica seu olhar, permanecendo enquanto curiosidade de uma época, mas esquecendo-se de sua responsabilidade e alcance até os dias de hoje.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 5 |
| Daniela Pedroso | 4 |
| MÉDIA | 4.5 |

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