Crítica

O cinema religioso anda enfrentando tempos difíceis em Hollywood. Se a meca da sétima arte no Ocidente já foi responsável por entregar ao mundo títulos como Os Dez Mandamentos (1956) e Ben-Hur (1959), ambos premiados no Oscar, atualmente temos nos deparado com obras rasas como Ressurreição (2016) e O Jovem Messias (2016), que pouco vão além da leitura mais simplista das escrituras bíblicas. Mas há ainda aqueles que se aventuram ir além do aspecto histórico, buscando inspiração nas mensagens e ensinamentos de cada doutrina. Porém, para cada Martin Scorsese (Silêncio, 2016), que não se acomoda com o óbvio e busca a inquietação e o questionamento, há vários cineastas como Stuart Hazeldine, que, como visto neste A Cabana, parece mais preocupado em transformar os elementos espirituais ao seu dispor numa brincadeira quase fantasiosa e, por vezes, até mesmo desrespeitosa diante dos sentimentos mais profundos aos quais tais temas são suscetíveis.

Baseado no romance homônimo de William P. Young – que já vendeu mais de 18 milhões de cópias em todo o mundo – A Cabana parte da ideia bastante óbvia de que cada ser humano é especial e, por isso mesmo, Deus teria tempo igual para cada um de nós. Ou seja, é aquele que tudo pode, quer e conquista, e cada um dos seus atos só pode ser explicado diante o quadro geral da existência, e não conectado a apenas um ou outro efeito imediato. Quando o já citado Scorsese tentou explorar essa verdade única e universal em um Cristo que fosse resultado da combinação perfeita do Pai com o Filho, sendo tanto Deus quanto Homem, em A Última Tentação de Cristo (1988), poucos estiveram dispostos a escutá-lo, levando o debate a polêmicas vazias e controvérsias nulas. Quase 30 anos se passaram desde então, e o que temos agora é um Deus que se apresenta como uma mulher negra preocupada em oferecer um farto café da manhã. Mudança positiva em inegáveis aspectos, porém terrivelmente reducionista em tantos outros.

Mack Phillips (Sam Worthington) é um homem zeloso por sua família. Bem casado e pai de três filhos, vai à Igreja todo o domingo e reza antes de cada refeição. Acredita, como se pode ver, naquele que concede favores mediante obediência cega (“se assim agir, o Reino dos Céus estará garantido”, é o que pregam). Porém, durante um momento de descuido, a caçula desaparece, apenas para, após muita busca, descobrir que a menina não só foi sequestrada, como assassinada por um maníaco no meio da floresta. A desgraça abate cada um dos familiares, mas ninguém sentirá tanto quanto ele. Deve estar pensando: “se fiz sempre tudo certo, por que isso me aconteceu?”.  Veja bem, a tragédia é de todos. Mas ele é o único que decide se autopenalizar, desprezando o convívio com os demais filhos e minando a relação com a mulher. Tudo lhe vai de mal a pior, até que um recado lhe é deixado na caixa de correspondência. Dentro do envelope, a mensagem é breve e sucinta: “venha me encontrar na cabana”.

Bom, qualquer pessoa iria desconfiar de um convite não identificado como esse. Porém, a trama de A Cabana se dá em outro nível de entendimento. Estamos no terreno do fantástico, em que tudo é possível, desde que imaginado. E assim, ao caminhar entre às árvores rumo ao mesmo cenário que significou o fim da sua criança, ele irá se deparar com uma outra visão daquela realidade: luz ao invés da noite escura, flores e grama verde no lugar da neve pesada, calor e conforto substituindo o frio e a desolação. Papa (Octavia Spencer) está lhe esperando, acompanhado de Jesus (Avraham Aviv Alush) e de Sarayu (Sumire Matsubara). E como se não bastasse essa turma, ainda lhe arranjam uma visita à caverna da sabedoria, onde encontram Sofia (Alice Braga). E entre corridas a pé sobre a água (o segredo do milagre é acreditar!) e uma aula de como fazer a massa do pão, nosso protagonista vai sendo conduzido por uma overdose de clichês que não lhe permitem nenhum tipo de reflexão a respeito do ocorrido. “A vida é assim, há sempre um plano maior que precisa ser respeitado”, lhe dizem. Como se a dúvida não fosse a base de toda e qualquer evolução da humanidade.

Mas além de diálogos previsíveis e efeitos visuais corriqueiros, A Cabana constrange pela certeza de que irá fazer algum tipo de diferença apenas por reafirmar conceitos já muito explorados. A lógica parece ser a da repetição: se não há capacidade para ir além, insiste-se no mesmo, apenas conferindo-lhe um novo visual. Àqueles que acreditam numa força maior, é de se esperar que a fé que depositam possa lhes permitir um momento único junto a esse pai protetor e acolhedor. Triste, no entanto, é verificar como tantos podem se conformar com um resultado tão simplista e desprovido de revelações como o aqui trabalhado. Com um elenco irregular – Worthington é monocórdico, ao passo que Spencer e Alice até se esforçam com o pouco que lhes é oferecido – e um diretor incapaz de qualquer toque de originalidade, tem-se um sermão cansado da missa do fim de semana feito para fãs de super-heróis e outras figuras mágicas: a primeira impressão pode até saltar aos olhos, mas logo se esvai com a mesma rapidez que surgiu, restando nada que possa ser aproveitado além daquilo já sabido de antemão.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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Grade crítica

CríticoNota
Matheus Bonez
4
Bianca Zasso
3
MÉDIA
3.7

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