100 Dias

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Sinopse

Em 100 Dias, Amyr Klink enfrenta sozinho a travessia do Atlântico Sul a bordo de um pequeno barco projetado por ele mesmo. Durante a histórica viagem entre a África e o Brasil, a luta contra o mar se mistura aos desafios internos, levando o navegador a confrontar medos, memórias, conflitos familiares e as escolhas que definiram sua trajetória. Biografia.

Crítica

Não é por acaso que Amyr Klink se tornou uma referência nacional, quase um herói, como é visto por muitos. Os desafios que enfrentou e os sacrifícios aos quais se submeteu justificam tal percepção. Seus feitos são superlativos, tanto pela força de vontade demonstrada, como também pela destreza e habilidade empregada em cada uma das suas tantas jornadas, na maioria das vezes dadas como malucas ou minimamente improváveis, mas executadas com efeito e imensa entrega por esse atleta e navegador de gigantesco talento e inquestionável dedicação. Não gera espanto, portanto, a decisão de transformar em filme uma das suas tantas histórias. A surpresa, no entanto, é outra: como pode ter demorado para o cinema se apropriar de imenso exemplo de aventura e superação? Porém, essa espera não significa necessariamente que 100 Dias, o longa que se encarregou de corrigir tal injustiça, esteja à altura de tais conquistas. Eis uma obra competente em quase tudo a que se propõe, mas isso, ao mesmo tempo, não parece ser suficiente para retirá-la de uma vala comum a tantas outras similares em intenções e resultados. Sente-se falta daquele algo a mais, o detalhe que separa o corriqueiro do inesquecível. Justamente a diferença que ao homenageado nunca faltou.

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Antes mesmo de completar 30 anos, Klink se tornou a primeira pessoa a cruzar o oceano Atlântico em um diminuto barco a remo. Ele saiu da África, mais precisamente na Namíbia, no dia 12 de junho de 1984, com a intenção de aportar no Brasil, na praia da Espera, próximo a Salvador, em 18 de setembro do mesmo ano. Ou seja, para qualquer um que se dedicar a fazer as contas, chegará a uma centena de dias de navegação. O resultado foi descrito no livro “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”, que o próprio publicou no ano seguinte. Foram necessárias quatro décadas, no entanto, para que esse relato fosse adaptado para a tela grande. E o que se percebe ao se assistir ao resultado é justamente a ausência dessa solitude. Se constata ser uma árdua tarefa transmitir ao espectador a imensidão do horizonte ao qual o protagonista se viu sujeito durante a quase totalidade do seu trajeto. Os planos são em sua maioria fechados, e a constante necessidade de flashbacks ou de pontuar a narrativa com a participação de outros personagens que não aquele ao qual todas as atenções deveriam estar voltadas interrompem tal sentimento, resultando em algo difuso, para não dizer irregular.

Mas nem tudo se mostra problemático. Há um acerto em 100 Dias, um que se confirma desde os primeiros momentos da trama, e esse responde pela escolha de Filipe Bragança como intérprete do protagonista. O jovem ator, que começou ainda criança na novela Chiquititas (2013-2015) e se tornou galã adolescente em comédias como Cinderela Pop (2019), não ficou parado no tempo. A sua galeria de personagens icônicos, como o youtuber Christian Figueiredo (Eu Fico Loko, 2017), o cantor Sidney Magal (Meu Sangue Ferve Por Você, 2023), o produtor e ativista Daniel Carvalho de Souza (Betinho: No Fio da Navalha, 2023) e o policial Victor Dantas (Dom, 2021-2024), ele agora agrega mais um, por meio de uma proposta que nasce e sobrevive quase que exclusivamente sobre os seus ombros. Bragança revela imensa entrega por meio de uma complexa expressividade corporal, que transmite nem muito, também não pouco, mas o suficiente enfrentado por um personagem que na maior parte do tempo se encontra sozinho e que, caso ficasse falando consigo mesmo, se mostraria não apenas redundante, mas até mesmo ridículo. Está no olhar, na postura e no mergulho por trás do que levou esse ser tão intenso a empreender algo que se dizia impossível um estudo de personagem que fascina e aproxima.

Mas ainda que em cena a jornada seja de Amyr, ele não é o único a dar as caras. O roteiro proposto por Elena Soarez e Thais Tavares (a mesma dupla da minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, 2025) aponta de forma insistente as origens familiares do protagonista, tentando justificar a todo custo um suposto trauma relacionado ao perfil austero, embrutecido e até mesmo arrogante do pai como razão única para as decisões do filho. É como se tudo que Amyr faz fosse para se provar a um homem que a ele nunca foi simpático. Interpretado por Felipe Camargo, Jamil Klink se apresenta como um tipo unidimensional, de uma nota só, cuja revolta contra o mundo se descarrega sobre sua família. A mãe e esposa, vivida pela francesa Philippine Leroy-Beaulieu (Emily em Paris, 2020-2025), até se esforça para dar alguma matiz e esse conflito tão gratuitamente imposto, mas o quadrilátero afetivo se completa com o irmão caçula (João Vitor Silva, também sem muito o que fazer em meio a esse entrevero), propondo um contexto de maior ruído e menos sentido.

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Carlos Saldanha fez história como um dos primeiros brasileiros a conquistar uma indicação ao Oscar (concorreu em Melhor Curta de Animação, por A Aventura Perdida de Scrat, em 2004, e em Melhor Longa de Animação, por O Touro Ferdinando, em 2018), mas o talento que demonstra no exercício animado ainda está para se comprovar no cinema live action. O anterior Harold e o Lápis Mágico (2024) não disse a que veio, e esse 100 Dias, sua segunda experiência no formato (para além de séries ou curtas-metragens), confirma suas muitas – a acumuladas – boas intenções, mesmo que nem sempre essas se mostrem de acordo com as expectativas. Do encontro sensível – e arriscado – com as baleias aos perigos que em mais de uma vez se aproximam da tragédia que tal travessia volta e meia apresentava, tudo acaba por soar por demais trivial, sem a verdadeira dimensão que cada episódio exigia. E assim eis um resultado correto, ainda que desprovido da paixão e do desprendimento que apenas aqueles dispostos ao risco assumem quando certos do que querem. Algo que o próprio Amyr Klink conhece bem demais, mas que aqui se verifica não apenas ausente, mas curiosamente ignorado.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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