Tenho visto – com mistura de curiosidade e incômodo – como Reels e TikToks passaram a se apropriar do cinema não para apresentá-lo, mas para esvaziá-lo em troca de engajamento. O gatilho deste artigo surgiu com a popularização de A Meia-Irmã Feia, lançado no Brasil no final de 2025, divulgado como uma releitura sombria e de terror corporal do conto da Cinderela, agora pela perspectiva de Elvira, irmã da protagonista que busca desesperadamente a beleza para conquistar um príncipe. Cirurgias, rituais grotescos… a sinopse insinua tudo isso. Sabemos, desde o começo, que o caminho será desconfortável. Mas imaginar o que vem por aí é muito diferente de receber o clímax de bandeja.
A divulgação oficial faz o que deve fazer: aponta, provoca, sugere. Ela não – e nem pode – dar conta da experiência. Saber que há mutilação não é o mesmo que atravessá-la narrativamente. Saber que existe obsessão estética não equivale a sentir o peso de cada decisão. Ainda assim, bastou o filme circular para que pelo menos três páginas de criadores de conteúdo transformassem seu momento mais extremo em isca de engajamento – talvez você mesmo tenha esbarrado nelas na sua timeline. E de forma clara e límpida mesmo: “essa menina engoliu uma tênia para emagrecer!! Que filme é esse??”.

Num mundo saturado por discursos sobre magreza, Ozempic, Mounjaro e beleza como valor moral, é óbvio que esse recorte renderá cliques e comentários. Engolir um parasita para caber num padrão é chocante, comentável, viral. Os criadores sabem disso – e exploram. O problema é que, ao fazê-lo, entregam o orgasmo antes da excitação, desmontando um filme que depende inteiramente da sua progressão dramática.
E então a pergunta se impõe: e se em O Sexto Sentido (1999) já soubéssemos que o personagem de Bruce Willis está morto desde o início? E se Clube da Luta (1999) fosse reduzido à revelação de que Edward Norton conversa consigo mesmo, e não com Brad Pitt? E se Psicose (1960) circulasse hoje como um vídeo explicando quem é o assassino em 30 segundos? O que sobraria dessas obras além de curiosidades narrativas sem efeito emocional?
Vamos pegar o sexo como exemplo – para incomodar os puritanos de plantão. Não existe prazer sem construção. Há aproximação, carícia, desejo, preliminar. O orgasmo não é o todo, mas a consequência de um percurso. Antecipá-lo não é libertador, nem transgressor: é empobrecedor. Quando o ápice vem antes do desejo, sobra apenas um reflexo físico, nunca a experiência plena. O cinema funciona da mesma forma.

O mesmo pode se aplicar ao futebol, a uma viagem, a qualquer vivência que dependa de percurso. Um jogo não começa com um pênalti, assim como uma viagem não se resume à foto no ponto turístico. Há o aquecimento, a tensão, o erro, a correção, o tempo que passa sem que nada decisivo aconteça. Há o trajeto, o cansaço, o deslocamento físico e emocional. É justamente esse acúmulo que dá sentido ao gol e à chegada. Sem percurso, sem espera, sem frustração, resta apenas o resultado cru – descartável, esquecível, incapaz de produzir memória.
No fim, o problema não é apenas o spoiler, mas uma lógica de consumo que deteriora o cérebro e a cultura. Tudo precisa ser imediato, explicado, entregue. Não há mais espaço para o mistério, para a expectativa, para o tempo da arte. E quando se ensina o público a não esperar, mata-se algo essencial. Diante disso, a saída mais honesta – e talvez a única forma de preservar a própria inteligência – é, infelizmente, deixar de seguir esse tipo de página. Porque o orgasmo narrativo de um filme – como o prazer – só existe de verdade quando não chega antes da hora.
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