Paulo Morelli é acostumado às intempéries do mercado. Sócio da O2 Filmes, grande produtora nacional, tem no currículo a direção de comerciais, curtas, longas-metragens, séries de televisão, ou seja, é alguém aclimatado aos diversos cômodos do audiovisual. E agora ele apresenta uma proposta ousada nas telonas. Malasartes e o Duelo com a Morte (2017), filme brasileiro com a maior quantidade de efeitos especiais, resgata a figura emblemática do malandro Pedro Malasartes, que condensa boa parte das características associadas aos filhos do Brasil. Ao lado do ator principal da produção, Jesuíta Barbosa, ele lançou seu mais novo trabalho no Cineteatro São Luiz, durante o 27º Cine Ceará, prestes a encarar o crivo do público com a estreia comercial. E o Papo de Cinema teve uma conversa descontraída com o cineasta, na qual ele discorreu sobre, entre outras coisas, o futuro do audiovisual mundial. Confira.

 

Gostaria que você falasse um pouco sobre a gênese do Malasartes. Ele é um projeto antigo?
Começou nos anos 80 com uma pesquisa sobre folclores brasileiro e mundial. Encontrei duas vertentes: os causos do Malasartes, um cara muito esperto/enganador, e uma história da Morte, dela sendo ludibriada por uma pessoa inteligente. Juntei as duas e concebi essa trama do mais sagaz dos homens brasileiros tentando enganar a Morte. Naquela época, ou seja, quando do plano original, era tudo base de um episódio televisivo de 30 minutos. Resolvi, nos anos 90, expandir o roteiro de 30 páginas para um longa-metragem, incorporando a questão da liberdade, do livre arbítrio, contrapondo isso com o determinismo do destino, inserindo as parcas gregas e o Cândido do Voltaire.

Atualmente é propício o resgate desse tipo de humor do Malasartes, mais ingênuo, afastado das formas cômicas hoje mais recorrentes?
Espero que sim, porque é uma incógnita abrir a sala de cinema e ver o que acontecerá. Me agrada bastante trazer de volta essa ingenuidade, a pureza desse personagem. Apesar de ser enganador, um cara que dá golpe nas pessoas, ele tem bom coração, ingenuidade até no relacionamento com a personagem da Ísis Valverde. Malsartes não é um filme sexualizado, seus personagens são basicamente ingênuos, coisa realmente de outra época. Mas, resolvi apostar que pode emplacar hoje em dia. Agora, se vai funcionar ou não, saberemos a partir da estreia, quando as portas estarão abertas. Torço que faça sentido trazer de volta essa pureza de coração e de alma que estão no DNA do brasileiro. Por isso acho que pode funcionar.

 

Jesuíta Barbosa se encaixou como uma luva nesse espírito zombeteiro do Malasartes. Sua escolha, lá nos anos 90, era o Selton Mello, certo?
Sim, até porque o Selton tinha esse perfil, vide, mais tarde, a composição dele do Chicó, de O Auto da Compadecida (2000). Jesuíta encarnou Pedro Malasartes perfeitamente, pois vem do circo, tem humor e tradição de trabalho corporal. Até então ele só tinha feito dramas muito pesados e intensos. Acredito que um bom ator acaba servindo a vários gêneros. Fiquei muito feliz, Jesuíta superou bastante as expectativas, desenvolvendo o gestual, essa coisa meio clown que está além da realidade, porém sem cair na caricatura. O Malasartes tem o deboche, é meio enganador, paquerador, é encantado pela Áurea, mas também pela morena rebolante. É bem brasileiro, meio incorreto, mas não cruza a linha, não se transforma num canalha. Isso é bonito no personagem.

 

Malasartes é o filme brasileiro com maior número de efeitos especiais. Qual o grande desafio de trabalhar com essas possibilidades tecnológicas?
É realmente um desafio, mas estávamos cercados de gente talentosa por todos os lados. O pessoal do 3D era muito competente, eu confiava no trabalho deles, sabia que naquele fundo verde haveria alguma coisa interessante acontecendo. Foi um trabalho coletivo de criação. Me surpreendi gradativamente com as possibilidades, que expandiram as ideias originais. A equipe me ofereceu muito mais do que eu poderia ter imaginado. Mas nem tudo era fundo verde, pois a cenografia conseguiu dois espaços muito ricos: o cenário da Morte e o das parcas. No delas havia aquelas máquinas, as pedras feitas de concreto, os maiores cenários construídos até então na O2 (produtora da qual Paulo é sócio). O verde, na verdade, era somente o horizonte. Portanto, os atores não estavam mergulhados nos fundos verdes, como acontece em outros filmes, nos quais deve ser muito mais difícil. Eles tinham a concretude do trono da Morte, daquelas colunas feitas de ossos e caveiras, inspiradas na Igreja de Évora, em Portugal. O processo de pós-produção durou dois anos. Mesmo agora, na reta final, foi uma loucura. O filme ficou realmente pronto há uma semana.

Na condição de homem de mercado, você acha que a televisão brasileira vai demorar a entrar de vez na produção de séries, assim como os Estados Unidos hoje faz tão bem?
O panorama está mudando rapidamente no Brasil, partindo da lei da TV a cabo que propiciou a injeção de muito dinheiro na produção. Isso gerou uma revolução na maneira de produzir audiovisual no Brasil, não apenas no que concerne ao cinema. A própria Rede Globo, lugar por excelência da telenovela, está brigando para se transformar, produzindo minisséries, séries e superséries, com qualidade muito acima das novelas. Vi trabalhos muito bem feitos, que me agradam bastante, tipo Amores Roubados, as produções do José Luiz Villamarim, que são de altíssima qualidade, com uma cinematografia sofisticada, esmero em todas as áreas artísticas, na direção de arte, na fotografia, na música, na montagem. Hoje, os produtos mais maduros de drama estão se alojando na televisão. Já o cinema está atraindo um público específico, pois faz majoritariamente blockbusters infanto-juvenis.

 

O próprio Harry Potter. Tem gente dizendo que o Malasartes é o Harry Potter brasileiro…
Não fico confortável com essa comparação. Prefiro que Malasartes seja brasileiro. Antes de tudo, Harry Potter tem características da cultura anglo-saxã. Quis fazer um filme alinhado à cultura brasileira. Há abundância de efeitos especiais, mas isso é circunstancial, porque a história pede efeitos. Então, voltando, o cinema está se tornando o lugar do infanto-juvenil. Enquanto isso, produtos maduros, dramas adultos como Breaking Bad (2008-2013), House of Cards (2013-), Transparent (2014-), estão cada vez mais na televisão. As produções sofisticadas, que contam histórias pela via de imagem, ou seja, cinematograficamente, estão migrando para a televisão. Agora tem também o VOD, a Netflix, que influenciam esse cenário.

 

E esses meios mudam nosso consumo, instituindo coisas novas como as maratonas…
Essa coisa de “maratonar” séries é, ao mesmo tempo, atrativo e pode incomodar, pois muitos programas postergam o fim para ter mais e mais temporadas. Gosto das séries que tenham fim. Por exemplo, Breaking Bad acaba. Já a última temporada de House of Cards achei fraca. Os episódios do meio da quinta temporada soam meio perdidos. Não sei se vai ter nova leva. Pode ser que termine no vazio. Sinto que nesse novo panorama, os longas-metragens, que antes eram o grande romance, agora viraram o conto, enquanto a série virou, de fato, o novo romance, aquele de mil páginas.

Paulo Morelli, Jesuíta Barbosa e Chico Accioly

O Malasartes poderia virar série de televisão…
Pode ser que vire. Pode-se, também, fazer Malasartes 2, depende do público dos cinemas. Há dezenas de outras histórias que não couberam no filme, inclusive a mais famosa de todas, a da sopa de pedra, que estava num dos roteiros originais, dos anos 90, mas que tirei, porque não coube. Acabei nem filmando.

(Entrevista concedida no Cine Ceará, em agosto de 2017)

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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