Ana, En Passant, primeiro longa de animação dirigido por uma mulher negra a receber lançamento comercial no Brasil, já está em cartaz nos cinemas. A obra, assinada por Fernanda Salgado e com vozes de Jéssica Pierina, Zezé Motta e Carlos Francisco. Distribuída pela Embaúba Filmes, a trama é ambientada entre Paris e Belo Horizonte, acompanhando a personagem-título, uma jovem franco-brasileira que, após a morte da avó, recebe uma caixa com uma carta, objetos pessoais, duas chaves e um endereço na capital mineira. Movida pela curiosidade de conhecer uma parte desconhecida de sua própria história, ela viaja ao Brasil e começa a investigar as pistas deixadas pela familiar.
Em Belo Horizonte, conhece Alice, que vive no antigo apartamento de sua avó. Juntas, elas percorrem uma cartografia afetiva da cidade e descobrem novas dimensões de suas próprias histórias. A produção combina diferentes técnicas, como rotoscopia, animação 2D, colagem, animação termossensível e stop-motion, explorando possibilidades visuais para traduzir as experiências e os sentimentos da protagonista.
E para falar mais sobre o filme, o Papo de Cinema conversou com Fernanda e Jéssica. A seguir, fique com um trecho em texto e, em seguida, com o bate-papo, na íntegra, em vídeo:

ANA, EN PASSANT :: ENTREVISTA COM FERNANDA SALGADO E JÉSSICA PIERINA
A presença de uma diretora negra à frente de uma produção com lançamento comercial também evidencia um cenário que ainda precisa avançar. “Diz sobre o panorama das produções do cinema de animação no Brasil, tanto pelo lado do quanto cresceu nos últimos anos a quantidade de produções e a qualidade delas, quanto, muito significativamente, pelo quanto demorou para a gente ter filmes, longas-metragens de animação dirigidos por mulheres negras. Por muitos anos a gente não tinha nenhum. No ano passado tivemos o primeiro, que é o filme da Letícia, e neste ano, com Ana, En Passant e o filme da Brenda, Amadeu, estamos abrindo essa porta, esse caminho para a distribuição nos cinemas brasileiros”, afirma a cineasta.
Um dos elementos centrais da narrativa está na relação entre Ana e Alice. Embora sejam mulheres muito diferentes, as personagens também funcionam como espelhos uma da outra. A ideia, explica Fernanda, nasceu de seu interesse pela figura do duplo. “Essa ideia surge muito de uma fascinação minha pela figura do duplo, que está presente em muitos trabalhos da literatura fantástica e do cinema fantástico. Especialmente em um cinema fantástico que nos ajuda a investigar o nosso mundo, investigar a nossa existência e questionar alguns aspectos dela, do nosso estar no mundo”, comenta.
Na interpretação de Ana, Jéssica Pierina encontrou um ponto de aproximação entre a experiência da personagem e um momento pessoal. “A Fernanda foi essencial nesse processo, porque trouxe uma perspectiva da personagem muito concreta e, ao mesmo tempo, deixou muito aberto para que eu criasse as substâncias, os caminhos que ela poderia ter. Tive uma sincronicidade do universo, positiva e negativa ao mesmo tempo, mas positiva para o trabalho: eu também estava passando por um momento de luto muito parecido com o da Ana”, revela.
“De certa forma, tinha algo muito vivo dentro de mim, pessoalmente, que pude usar para aquela personagem. Nem sempre isso acontece, quase nunca acontece. Conseguimos usar uma coisa pessoal para a personagem, e isso me deu um entendimento melhor da energia, do que ela estava passando naquele momento. Também precisava entender o que era da Ana, para dar ênfase ao que era dela, e não ao que era meu”, completa.
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