Brasiliense de Taguatinga, Camila Márdila teve uma ascensão meteórica depois de Que Horas Ela Volta? (2015), filme no qual interpreta Jéssica, a filha cheia de convicções da personagem de Regina Casé. Simbolizando o ímpeto de uma juventude não mais disposta à servidão, ávida por ocupar espaços até então reservados a uma minoria relativamente abastada, Jéssica caiu nas graças do público e da crítica, catapultando a carreira de Camila que, inclusive, dividiu com Regina o prêmio de Melhor Atriz no prestigiado Festival de Sundance. Além disso, ela foi escolhida Melhor Atriz Coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Camila estreou, logo depois, na televisão aberta, na minissérie Justiça (2016), destacando-se também na telinha com uma figura forte. Em Altas Expectativas (2017), a atriz vive Lena, a pensativa dona de um café no Jockey Clube Brasileiro, interesse amoroso do protagonista. Ela, gentilmente, nos atendeu para uma conversa exclusiva sobre o filme. Confira mais este Papo de Cinema.

 

O que te fez embarcar no Altas Expectativas e viver a Lena?
Principalmente o fato de ser um projeto diferente de qualquer coisa que eu já tinha feito na minha vida artística, sobretudo em cinema. Há a inovação de ser um filme protagonizado por um ator com nanismo, e também de ser uma comedia dramática, gênero que exploramos muito pouco no Brasil. Além disso, a Lena, estritamente como personagem, é um grande desafio. Desde a leitura do roteiro, percebi que o conflito dela é não sorrir. Isso dentro de um filme bem-humorado. Eu quis embarcar principalmente por causa desses motivos.

Com Regina Casé em cena de “Que Horas Ela Volta?”

E como foi interpretar essa personagem que não ri?
O caminho tinha de fazer sentido para mim, essa foi minha busca com os diretores e os roteiristas. Eu precisava encontrar um sentido dela ser assim. Me perguntava: mas por que a Lena não sorri? Onde a cabeça dela está? Percebi no processo que a Lena não está voltada para onde a maioria olha, pois vive em outro universo, tem a atenção direcionada a outras minúcias e delicadezas. Talvez, por isso ela encontra a essência do Décio. Ele, como nenhum outro, percebe que o olhar dela é diferente, porque presta a atenção em coisas semelhantes. A Lena efetivamente não faz questão de agradar. Ela tem mil questões para administrar, como o café herdado, o irmão temporariamente paraplégico, e acaba esquecendo de si própria.

 

No filme, a história pregressa da Lena aparece pouco. Você chegou a criar esse background para guiar a sua interpretação?
Não chegamos a formatar uma história propriamente dita. Conversei bastante com o Álvaro, que é um dos diretores e também roteirista, sobre certas possibilidades. Pensamos que ela perdeu os pais muito cedo e foi criada pelo tio que era dono do café. Quando esse tio se vai, ela perde o vinculo familiar. Nisso, já está lidando com o irmão, especificamente com seus problemas de saúde. Fomos construindo essas relações familiares. Isso foi importante para chegar até a Lena, a fim de conseguir me conectar com esse olhar para outras coisas que ela tem.

 

Como foi contracenar com o Gigante Léo, no primeiro filme dele como protagonista?
Foi muito bom. O Léo estava entregue de uma maneira além da conta. Ele tinha uma série de dificuldades com as quais lidar, de ordem pessoal e profissional. Ele veio da comédia, não era ator, e nesse filme há uma carga dramática. O Léo permaneceu totalmente dedicado, focado. Foi realmente surpreendente. Ninguém melhor do que ele para representar o que acontece no filme. Senti que a minha questão ali era tirar o máximo de proveito dos nossos momentos juntos. Tenho muita admiração pelo Léo, acho que ele fez esse trabalho brilhantemente. Fico feliz de a gente conseguir criar um vinculo muito afetuoso entre os nossos personagens.

Com o Gigante Léo em “Altas Expectativas”

O filme tem um protagonista com nanismo e um coadjuvante cadeirante. De que maneiras você acha que esse tipo de representatividade pode ajudar a quebrar preconceitos?
As obras artísticas, o cinema aí incluso, geram as nossas maneiras sensíveis de comunicação com o resto do mundo. Portanto, é uma função importante esta a de trabalhar as representações, buscando colocar todas as pessoas no mesmo lugar, respeitando possibilidades, dramas, facilidades e dificuldades. É algo muito nobre. Outra coisa legal nesse sentido é a presença de uma joqueta, algo não muito comum dentro desse mundo essencialmente masculino das corridas de cavalo. No roteiro se explorava essa questão um pouco mais abertamente. Havia momentos em que isso era colocado claramente. Acho muito bonito como o filme encara questões de representação social, politica, enfim, sendo uma comedia leve.

(Entrevista concedida feita no Rio de Janeiro em dezembro de 2017)

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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