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Sniper Americano

19/01/2015    

 

Crítica

Chris Kyle (Bradley Cooper) matou mais de 150 pessoas nos cerca de dez anos em que serviu os Estados Unidos na guerra contra o terror. Texano, cowboy, ele foi criado pelo pai para acreditar que dentre três tipos de pessoas existentes no mundo, os lobos, as ovelhas e os cães pastores, deveria fazer parte do último grupo, dedicar-se à proteção, erradicar o mal e ter como principal propósito a busca pelo bem. Por isso, não hesita quando surge a oportunidade de alistar-se. Acha que assim está indo ao encontro de um objetivo maior, colocando sua vida sob a tutela de uma nação que, a bem da verdade, não faz cerimônia para mandar seus jovens a territórios hostis, com finalidades nem sempre claras.

Chris, esse herói norte-americano, é o personagem principal de Sniper Americano, filme de Clint Eastwood. O dilema moral da primeira cena – matar ou não uma mulher e uma criança para cumprir o dever – não se repete com frequência, ou seja, estamos num terreno em que os sentimentos do protagonista, embora ainda resistentes, estão bastante entorpecidos, além da própria formação, pelo treinamento militar cujo propósito é justamente transformar humanos em máquinas de matar. Um atirador de elite como Chris deve apenas pensar em termos de precisão, focar-se completamente na missão, puxar o gatilho para eliminar o inimigo. Do alto dos prédios, abatendo alvos incessantemente, ele garante a segurança dos colegas e logo vira lenda.

Paralelo à guerra, há a vida pessoal. Chris é casado, mas a ausência faz com que sua relação se dê em meio à saudade e o desgosto da esposa Taya (Sienna Miller). Nesse terreno familiar, Clint mostra os efeitos devastadores do pós-guerra, afinal de contas dificilmente sai-se ileso, emocional ou fisicamente, de algo assim. Se no campo de batalha todo cuidado é pouco e a vigilância precisa ser constante, de volta ao lar qualquer barulho pode ser confundido com ameaça. Com Chris não é diferente, e mais, ele parece não existir sem seu rifle. O roteiro de Sniper Americano alterna as viagens do protagonista e a luta que ele empreende consigo mesmo sempre que retorna. Eastwood ressalta o DNA bélico norte-americano, essa notória sanha estadunidense por armas, com a propriedade de quem interpretou Dirty Harry, entre outros personagens cujo meio de expressão principal sempre foi o tiro.

Sniper Americano é um filme de claro viés crítico, com múltiplas camadas de complexidade. O único senão nesse sentido é a maneira como Eastwood retrata parcialmente o oposto, sempre como inimigo, poucas vezes ressaltando o humano do lado de lá. Os soldados sofrem, são marcados para sempre, mas e os habitantes locais rechaçados pelo exército do Tio Sam? A entrada em cena do atirador sírio, espécie de antagonista particular de Chris, promove uma inversão interessante, afinal de contas os norte-americanos passam de caçadores à caça, incluindo aí o próprio Chris, ele que se aventura no solo para abrandar a culpa longe do pedestal de lenda, tornando-se vulnerável como os outros. Eastwood só aborda emoções um tanto óbvias quando elas são incontornáveis, neste filme em que o Estado está na berlinda, assim como a ideia distorcida, pois dogmática, de alguns sobre proteção, patriotismo, certo e errado.

Nota da crítica

3.5/5

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Marcelo Müller é crítico de cinema, membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro - RJ. Além disso, comenta semanalmente as principais estreias cinematográficas na Rádio Nacional do Rio AM 1130.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: American Sniper

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2014

DIREÇÃO: Clint Eastwood

ROTEIRO: Jason Hall

EDIÇÃO: Joel Cox e Gary Roach

FOTOGRAFIA: Tom Stern

MÚSICA: Joseph DeBeasi

DIREÇÃO DE ARTE: Charisse Cardenas e James Murakami

PRODUÇÃO: Clint Eastwood, Bradley Cooper, Andrew Lazar, Robert Lorenz, Peter Morgan.

ESTÚDIO: Warner Bros

ELENCO: Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner, Luke Grimes, Jonathan Groff, Cole Konis, Ben Reed, Elise Robertson, Luke Sunshine, Troy Vincent, Brandon Salgado Telis, Keir O' Donnell, Marnette Patterson, Jason Hall, Billy Miller, Leonard Roberts, Reynaldo Gallegos, Kevin Lacz, Jake McDormand, Cory Hardrict, Eric Ladin, Brando Eaton, James Ryen, Jonathan Kowalsky, Sammy Sheik, Eric Aude, Sam Jaeger

Sinopse

História real de Chris Kyle, um atirador de elite das forças especiais da marinha americana. Durante cerca de dez anos, ele matou mais de 150 pessoas, tendo recebido diversas condecorações por sua atuação. O filme também acompanha a vida doméstica de Kyle, como marido e pai. Mas depois de quatro missões no Iraque, o atirador já não consegue mais deixar a guerra para trás, mesmo de volta à casa.

Curiosidades

- Oscar 2015: premiado como Melhor Edição de Som, foi indicado ainda como Melhor Filme, Ator (Bradley Cooper), Roteiro Adaptado, Montagem e Som;

- Entre as atrizes consideradas para interpretar Taya Kyle estavam Kate Mara e Evangeline Lily. Mara escolheu fazer o novo Quarteto Fantástico (2015) e, Lily, Homem-Formiga (2015);

- Steven Spielberg e David O. Russell foram alguns dos diretores que passaram pelo projeto antes de Eastwood assumir;

- Bradley Cooper, inicialmente, havia comprado os direitos para apenas produzir. Kyle deveria ser interpretado por Chris Pratt. Com a agenda cheia do ator, Cooper assumiu o papel;

- O pai de Kyle disse pessoalmente para Cooper e Eastwood que os "mandaria para o inferno" caso o filme desrespeitasse a memória de seu filho;

- Baseado no livro "American Sniper: Autobiografia do atirador mais letal na história militar dos Estados Unidos", escrito por Chris Kyle;

- National Board of Review 2014: premiado como Melhor Direção, além de ter sido selecionado como um dos dez melhores filmes do ano;

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