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Eclipse Total

20/05/2017    

 

Crítica

Stephen King não esconde o amor que sente por Louca Obsessão (1990), longa-metragem baseado em sua obra, que rendeu a Kathy Bates o Oscar de Melhor Atriz. Não apenas pelo filme, mas principalmente pela intérprete de uma das personagens mais bem construídas de toda sua carreira. O escritor ficou tão impressionado que escreveu um novo papel já com Bates em mente. Eis que surgiu Dolores Claiborne, a protagonista de Eclipse Total, um thriller psicológico, rico em utilizar o suspense como pano de fundo à possível retomada de uma não relação entre mãe e filha, mas que acaba pecando em alguns momentos pela falta de um roteiro mais coeso e uma direção menos esquizofrênica.

A Dolores do título original, personagem de Bates, é uma mulher já com certa idade, que trabalha cuidando de uma senhora rica da Nova Inglaterra, Vera Donovan (Judy Parfitt). Um dia, a velha rola escada abaixo e vemos Dolores se dirigindo a ela com um rolo de madeira em mãos. A mulher morre. A criada vai presa. A filha, Selena (Jennifer Jason Leigh), jornalista de Nova York, é notificada. O encontro entre as duas se dá após mais de uma década. Percebe-se que a relação é turbulenta por conta de questões mal resolvidas do passado. Afinal, o que causou tamanho distanciamento entre elas? Acima de tudo: Dolores matou Vera, mesmo?

O roteiro do então inexperiente Tony Gilroy consegue prender a atenção em sua primeira parte ao estabelecer as peças do jogo (Dolores/Selena/Vera e o investigador que cuida do caso), mas, quando adentra no segundo ato, com os flashbacks tomando conta da história entre idas e vindas, falha justamente em sua resolução. Não que esse seja o mote principal. A morte de Vera mais parece um McGuffin que propriamente o tema do filme. O que importa é o tratamento dispensado pela mãe à filha, e vice-versa. Algo que só aos poucos o público começa a entender. A fotografia, um dos melhores aspectos do longa, acentua ainda mais esse distanciamento familiar. Se no passado, no flashback de 1975, as cores são mais quentes, retratando certa esperança no futuro, o presente é cinzento, azulado, frio, assim como as emoções das personagens, tão contidas, mesmo que prestes a explodir.

Justamente para retratar emoções tão conflitantes, Bates e Leigh são as melhores intérpretes possíveis dentro desse mundo gélido de meias verdades. Ambas submergem em Dolores e Selena, numa química perfeita de mãe e filha, mesmo que tão distantes emocionalmente. Elas refletem o eclipse total do título brasileiro e que também faz parte da trama num momento importante do passado – algo que só saberemos de verdade no clímax da história. Porém, não é apenas no aspecto psicológico que o texto original de King toca fundo. É nas diferenças sociais e de classes que tudo se perpetua. Da mãe caipira trabalhadora braçal que sempre teve de lutar para conseguir os mínimos trocados e sobreviver, à filha que nasceu nesse contexto, mas conseguiu subir na vida com os próprios esforços, por conta do intelecto e da ambição, além, é claro, da ricaça que nunca passou dificuldades na vida.

Talvez seja um dos enredos de Stephen King com menos cara de... Stephen King. Porém, seus dedos estão ali, a todo momento, mesmo que o suspense ou até o sobrenatural pareçam pouco se comparados ao que o escritor já fez. Só faltou ao diretor Taylor Hackford dosar melhor o esmaecimento da trama. O final apressado torna o desenvolvimento lento, como uma desculpa para preencher tempo e espaço. Uma armadilha que não desmerece o filme, mas faz pensar se ele não teria sido melhor conduzido com um pouco mais de cuidado.

Ainda com boas aparições de David Strathairn como Joe, marido de Dolores, e de Christopher Plummer como o obcecado detetive Mackey, Eclipse Total fala muito de machismo e feminismo através de suas protagonistas fortes e solitárias, que não precisam de homens ao lado para seguir seus rumos. É também através da voz delas que percebemos o quanto esse mundo é injusto com as mulheres, por mais grandiosas que elas sejam, deixando toda a culpa sempre cair pro lado do “sexo frágil”, se é que um dia assim poderia ser chamado.

Nota da crítica

3/5

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Matheus Bonez é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Dolores Claiborne

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 1995

DURAÇÃO: 132 min

GÊNERO: Crime, Drama, Mistério

DIREÇÃO: Taylor Hackford

ROTEIRO: Stephen King, Tony Gilroy

FOTOGRAFIA: Gabriel Beristain

MONTAGEM: Mark Warner

MÚSICA: Danny Elfman

ESTÚDIO: Castle Rock Entertainment, Columbia Pictures Corporation

PRODUÇÃO: Charles Mulvehill, Taylor Hackford

ELENCO: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, Judy Parfitt, David Strathairn, Eric Bogosian, John C. Reilly, Ellen Muth, Bob Gunton, Roy Cooper, Wayne Robson, Ruth Marshall, Weldon Allen, Frank Adamson

Sinopse

Após ter sido absolvida do assassinato do marido, uma mulher é acusada de matar seu chefe. Uma jornalista volta à cidade com sua filha para cobrir o caso e se vê obrigada a enfrentar seu passado e confrontar sua mãe.

Curiosidades

- Baseado na obra literária homônima de Stephen King;

- Festival de Tóquio 1995: premiado como Melhor Atriz Coadjuvante (Ellen Muth);

- Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, USA 1996: indicado a Melhor Atriz (Kathy Bates), Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh) e Trilha Sonora;

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