O nosso papo é de cinema!


Demolição

22/12/2016    

 

Crítica

Acostumado a lidar com personagens cujos ferimentos internos se extrapolam através de atitudes drásticas em suas vidas, o cineasta Jean-Marc Vallée (dos excelentes Clube de Compras Dallas, 2013, e Livre, 2014) continua demonstrando habilidade para construir esse tipo de figura. Por exemplo, já na primeira cena de Demolição se estabelece de forma econômica a dinâmica do casal Davis (Jake Gyllenhaal) e Julia (Heather Lind): ela, na direção do carro, assume o controle da rotina de ambos, enquanto ele fala sobre negócios ao celular com o sogro (Chris Cooper). Estariam Davis e Julia em crise? As alfinetadas que trocam entre si fazem parte de suas interações comuns? Se numa primeira análise isso parece não importar, é porque a diferença estará no que o diretor irá fazer com essa dubiedade.

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Não é incomum que venhamos a projetar nossos próprios conflitos internos nas pessoas, nas situações e, por que não, nos objetos ao nosso redor. É uma defesa emocional e psicológica, e quando esse tipo de reação atinge um limite crítico, começamos a descontar as frustrações, a tristeza e a raiva nessas coisas. Desconstruir uma geladeira que pinga ou uma porta que range pode muito bem ser apenas o reflexo da nossa própria recusa em desconstruir aquilo que está pingando e rangendo dentro de nós.

Depois de um acidente que deixa Davis intacto e Julia morta, o investidor se mostra aparentemente incapaz de ficar enlutado pela perda da esposa, e começa a extravasar escrevendo cartas de reclamação para um fabricante. Sendo respondido pela misteriosa Karen (Naomi Watts), ele descobre uma vida muito diferente da sua – enquanto isso, os pais da falecida se ressentem com sua ausência e temem que ele não queira assinar os documentos que liberam o dinheiro do seguro de vida da filha para que criem uma bolsa de estudos no nome dela.

Ator extraordinariamente versátil, Jake Gyllenhaal não tem problemas em viver o alquebrado protagonista, equilibrando o olhar constantemente melancólico com outras posturas corporais que tentam esconder a turbulência daquele homem por dentro. E, mesmo calmo na maior parte do tempo, é notório que esteja enfrentando um furacão de sentimentos. Vallée ilustra isso com flashes e “aparições” de Julia na rotina de Davis – um truque que repete depois de tê-lo usado em Livre, e que funcionava um pouco melhor naquele longa, devido a sutileza. Esses relances, porém, jamais acusam a verdadeira natureza do casamento dos dois, e são o suficiente para continuarmos questionando se o viúvo realmente não amava mais sua esposa e, portanto, não consegue sentir a tristeza de sua perda, ou se suas estranhas investidas são uma forma de escapismo descontrolado, justamente para não ter que lidar com a dor.

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A questão, no entanto, é que tal dúvida não adquire maior importância. Demolição entende isso bem o bastante para não se sustentar sobre essas possibilidades. Pois, de uma forma ou de outra, é claro que Davis está fugindo de uma realidade que não deseja enfrentar. Não é por acaso que decide levar suas próprias palavras a sério – “tudo é uma metáfora” – passando a realizar atos de peso flagrantemente simbólicos em sua jornada, e assim, ao invés de rejeitarmos a covardia do protagonista, nos vemos abraçando sua empreitada quase autodestrutiva de viver fugindo daquilo que realmente significa. Como estudo de personagem, o longa-metragem de Vallée é melancolicamente magnético (mas de novo, assim também eram seus trabalhos anteriormente citados), porém, como filme, é um pouco mais trôpego.

Um exemplo está no fato do roteiro de Bryan Spice pouco explorar a promissora relação de Davis com o filho de Karen, Chris (Judah Lewis), o que, devido as temáticas que envolvem o garoto, soa quase desrespeitoso que o filme as introduza só para ignorá-las depois. Além disso, apesar da relevância, menos atenção ainda é dada à personagem de Watts, quase avulsa na trama. O que, felizmente, não acontece com Chris Cooper, que tem tempo e texto suficiente para construir Phil como um pai destruído e, paralelamente, austero na tentativa de manter o controle sobre a situação com seu genro – e sua performance é instrumental para o funcionamento de uma parte importante do filme, já que mesmo visto através da perspectiva de Davis, Phil jamais soa vilanesco, e mesmo seus momentos mais tensos escondem uma dor subjacente que transformam sua rigidez em provas de sua capacidade de sentir empatia.

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Assim, é uma pena ver que Vallée, em Demolição, aceite entregar figuras que tanto se empenha em construir junto a seus atores a um final de soluções fáceis e batidas. Um desfecho quase colorido e otimista, apesar da palheta predominantemente cinza, que jamais faz jus a complexidade dos personagens que acompanhamos até ali – ainda bem que a jornada, no caso, compensa mais do que seu resultado.

Nota da crítica

4/5

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Yuri Correa é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.

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Ficha Técnica

demoliçao-papo-de-cinema-01NOME ORIGINAL: Demolition

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2015

DURAÇÃO: 101 minutos

GÊNERO: Drama

DIREÇÃO: Jean-Marc Vallé

ROTEIRO: Bryan Sipe

FOTOGRAFIA: Yves Bélanger

MONTAGEM: Jay M. Glen

DESIGN DE PRODUÇÃO: John Paino

FIGURINO: Leah Katznelson

ESTÚDIO: Black Label Media, Mr. Mudd, Right of Way Films

PRODUÇÃO: Lianne Halfon, Sidney Kimmel, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, John Malkovich, Molly Smith, Russell Smith

ELENCO: Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis, C.J. Wilson, Polly Draper, Malachy Cleary, Debra Monk, Heather Lind, Wass Stevens, Blaire Brooks, Ben Cole, Brendan Dooling, James Colby, Alfredo Narciso

Sinopse

Davis é um investidor de sucesso que tenta superar a morte da sua esposa em um acidente de carro. Embora todos tentem ajudá-lo, nada parece fazer efeito. Até que um dia, escrevendo uma carta de reclamação para uma empresa, ele tem um impulso de começar a escrever diversas cartas extravasando sua frustração. Isso chama a atenção de Karen, que também tem seus próprios traumas, e que se aproxima de Davis para tentarem, ambos, reconstruir suas vidas.

Curiosidades

- SXSW Film Festival 2016: premiado com o Troféu Headliners pela Escolha da Audiência;

- Selecionado para o Festival de Toronto 2015;

- Selecionado para o Festival de Sydney 2016;

- Selecionado para o Festival de Luxemburgo 2016;

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