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Código de Silêncio

17/03/2017    

 

Crítica

Quando você mostra um grupo de novatos sendo abusados psicológica e fisicamente por estudantes mais velhos, o primeiro tema que deve ocorrer ao espectador é o bullying e como o trote universitário serve de desculpa para sua vasão. Entretanto, quando se descobre que todos aqueles alunos frequentam uma instituição de ensino superior apenas para negros, talvez a perspectiva mude e o centro de discussão passe a ser um método questionável de fortalecer os futuros indivíduos afrodescendentes que serão inseridos na sociedade. Ou, conforme se descobre ser, Código de Silêncio pode ser um filme sobre um único personagem, e como todos esses contextos acima o afetam de maneira muito pessoal.

E se de outra forma poderia ser reprovável que o filme levante temas tão intrigantes e atuais sem se preocupar em aprofundá-los, aqui o longa prova que seus tópicos talvez não fossem tão contemporâneos se olhássemos mais para as pessoas como indivíduos singulares, e não como parte de um problema. Ou melhor, de um grupo problematizado e, obviamente, problematizador. Não que deveríamos ser dissociados de nossas causas, mas são os movimentos sociais que precisam ser vistos através de seus membros e componentes, e não o contrário.

O personagem sobre o qual a trama se debruça é o jovem Zurich (Trevor Jackson), que está determinado a entrar para a fraternidade mais prestigiada da sua universidade. O fato de seu pai não ter conseguido passar pela última fase do processo, a noite de iniciação, assombra e motiva o garoto a aguentar as constantes torturas morais e os abusos físicos dos “irmãos”. E isso não se limita a aguentar na pele quieto, pois os eventos afetam sua relação com seus colegas, seu desempenho nas aulas e ainda o seu relacionamento. Demonstrando através de um exemplo extremo e dinâmico, como uma realidade violenta molda diretamente os potenciais de um indivíduo.

Mas de novo, aprofundar essas temáticas não é o foco de Código de Silêncio. Não que o filme as trate de forma leviana ou ignorante. Pelo contrário, quando Zurich tenta argumentar com o reitor sobre a violência das provas de iniciação, sentimos na amargura da resposta dada pelo homem as dores que a sociedade já lhe infringiu, e por mais que isso não justifique que permita os abusos, é um detalhe precioso para que o filme construa a ideia do ambiente que rodeia aqueles personagens. Da mesma forma, a gentileza e dedicação demonstradas pela professora Hughes em relação a Zurich (vivida pela ótima e, infelizmente, pouco reconhecida Alfre Woodard) denuncia não só que o mundo realmente oferece resistência a pessoas negras, como também ilustra uma abordagem radicalmente diferente para incentivar os jovens dessa etnia a lutarem por seus direitos – e o antagonismo de ideias entre Hughes e o reitor fica claro de maneira inteligentemente discreta através de um rápido cumprimento que trocam no pátio do campus.

Centro das atenções, portanto, Trevor Jackson enfrenta à altura o desafio de tornar carismático um personagem que passa a maior parte do tempo com o cenho fechado e introspectivo. Nesse sentido, a cena que divide com uma prostituta, além de essencial ao desenrolar da trama, também serve como respiro para o ator construir Zurich como um jovem gentil e que sabe rir de coisas banais. E se Código de Silêncio abre com uma confissão sua sobre seus sentimentos sobre o pai, a escolha do diretor e roteirista estreante em longas-metragens, Gerard McMurray, de encerrá-lo com uma rima a isso, é essencial para compreender que o filme sempre foi focado em Zurich, independente das tramas em que ele estava inserido. E quando sua história chega a uma catarse, o realizador entende que esse é o ponto para dar fim à jornada do espectador ao seu lado, por mais que frustre não saber o que aconteceu depois – ou antes, já que entramos no assunto.

Nota da crítica

4/5

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Yuri Correa é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Burning Sands

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2017

DURAÇÃO: 96 min

GÊNERO: Drama

DIREÇÃO: Gerard McMurray

ROTEIRO: Christine Berg, Gerard McMurray

FOTOGRAFIA: Isiah Donté Lee

MONTAGEM: Evan Schrodek

MÚSICA: Kevin Lax

FIGURINO: Roland Sanchez

ESTÚDIO: Netflix, Freedom Pictures, Homegrown Productions, Hudlin Entertainment

PRODUÇÃO: Stephanie Allain, Jason Michael Berman

ELENCO: Segun Akande, Sidney Alexandria, Malik Bazille, Alfre Woodard, Steve Harris, Trevante Rhodes, Toshi Calderón, Cuyle Carvin, Tosin Cole, Keenan Echols, Mitchell Edwards, Imani Hakim, DeRon Horton

Sinopse

A fraternidade Lambda Lambda Phi possui um dos processos seletivos mais curiosos dentre as prestigiadas universidades americanas. Tudo é visto pelos olhos de um candidato dividido entre honrar as regras do grupo ou se levantar contra a crescente violência dos trotes.

Curiosidades

- Festival de Sundance 2017: selecionado para a mostra competitiva;

- O diretor Gerard McMurray se baseou em suas próprias experiências como recruta para uma fraternidade negra;

- Lançado no Brasil diretamente na Netflix;

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  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

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  • "A Múmia" (Universal)

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    Público Total: 1,9 milhões de espectadores

  • "Baywatch" (Paramount)

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  • "Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar" (Disney)

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  • "Carros 3" (Disney/Pixar)

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  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

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  • "All Eyez on Me" (Lionsgate)

    Estreia: US$ 27 milhões

    Bilheteria Total: US$ 27 milhões

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: US$ 13,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 56,5 milhões

  • "47 Meters Down" (ENTMP)

    Estreia: US$ 11,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 11,5 milhões