Yo (Love is a Rebellious Bird)

Crítica


9

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Em Yo (Love is a Rebellious Bird), após a morte de sua amiga Yo, Anna dedica dez anos à construção obsessiva de uma réplica em escala 1/3 da casa onde compartilharam momentos decisivos. Grande o bastante para que ela atravesse a porta, a maquete abriga uma marionete que representa Yo, recriando simbolicamente a presença da mulher que marcou sua vida. Quando se conheceram, Yo tinha 73 anos e Anna, 24 - uma diferença de idade que nunca impediu o surgimento de um vínculo profundo. Documentário.

Crítica

Há alguns interditos sociais pouco representados pelo cinema, sendo um deles a amizade profunda entre pessoas de gerações diferentes. Não uma relação que surge de um contexto familiar ou aquela fundada em uma dinâmica de mestre e pupilo, mas um afeto não hierarquizado e espontâneo entre pessoas que cresceram em momentos históricos completamente distintos e se uniram pelas mesmas afinidades mútuas que embasam qualquer relação entre amigos. Pois é justamente esse laço de amizade intergeracional que se ergue como o centro de Yo (Love is a Rebellious Bird), dirigido por Anna Fitch e Banker White. No documentário-ensaio íntimo, Fitch reflete sobre seus dezesseis anos de afeto e trocas com Yolanda, uma artista suíça radicada nos Estados Unidos que a realizadora conheceu ao acaso, aos 24 anos, quando Yolanda (chamada carinhosamente de Yo) já completara 73.

20260222 yo love is a rebellious bird filme papo de cinema

A cineasta, que se converte também em narradora, revela logo de início seu intento: incapaz de se despedir da amiga e confidente (a morte de Yolanda é informada ao público como ponto de partida da narrativa), ela se entrega ao processo cinematográfico como forma de lidar com o luto. Além disso, Fitch se aproxima do trabalho da sua musa inspiradora ao escolher construir uma maquete de grandes proporções da casa de Yo, muito detalhada, que ela passa a decorar obsessivamente. Dedicada no passado aos estudos de etimologia, a realizadora povoa a casa em miniatura de insetos, ação que rende planos mesmerizantes, mas que não se mostra gratuita, já que expressa o desejo de unir diretora e personagem numa criação em conjunto que nunca se realizou em vida. A casa também tem seu significado ampliado ao longo filme, sendo o lugar que Yo habita há mais de quarenta anos, sozinha (e não solitária, como ela mesmo assevera), e o ambiente em que ela declara desejar morrer.

O filme apresenta a maquete em riqueza de detalhes, em planos que se confundem com os ambientes em escala real, e utiliza uma marionete para reconstituir algumas cenas-chave da vida de Yo, numa composição tão comovente quanto inusitada, que parece se conformar perfeitamente à personalidade de Yo tal qual revelada nas muitas conversas entre ela e Fitch: uma mulher excêntrica e criativa, desajustada ao mundo em que viveu na juventude, com possibilidades tão estreitas para a existência feminina (a artista nasceu em 1924). Uma mulher que ousou se divorciar, viver um relacionamento com um homem muito mais jovem, experimentar (seja com as drogas, seja com uma existência um tanto marginal e desenraizada).

O caráter episódico do filme, unido ao fato de que ele se compromete a recontar momentos marcantes da vida de Yolanda com o uso de fotografias e narração, pontualmente transmite a sensação de que a narrativa poderia se libertar dessas amarras e ir em direção a uma construção mais ousada, espelhando sua personagem-central, que domina a tela inteira quando surge para refletir sobre a vida ou apenas para alimentar os pássaros que visitam sua casa. Neste contexto, surgem inclusive singelas cenas de nudez, que soam ousadas, uma vez que convidam à reflexão. Afinal, se o cinema e as artes plásticas sempre se enamoraram do corpo nu do jovem, especialmente o da mulher, por que a nudez da mulher idosa permanece quase um tabu? Em dado momento, Yo parece explicar com particular lucidez como consegue agir com naturalidade, não se incomodando com a intromissão da câmera em momentos tão particulares (de quebra, esclarece como foi capaz de subverter tanto ao longo da vida e, talvez, justifique até mesmo a força de seu laço com a diretora). “Eu me esqueci da minha idade”, ela diz.

20260222 yo love is a rebellious bird papo de cinema

Quando revela sua incapacidade de terminar o filme – por não querer se despedir dessa mulher que tanto admira por uma segunda vez – Fitch comove o espectador. Neste contexto, surgem planos que revelam os filhos dos diretores adentrando a réplica da casa de Yo e tentando se comunicar com ela através de cartas depositadas numa caixa de correio, acrescentando mais uma geração a esta conversa tão profícua. Tematizando a amizade entre duas gerações de mulheres artistas, Yo (Love is a Rebellious Bird) é uma pequena e despretensiosa joia.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
avatar

Últimos artigos deMaria Caú (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *