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Sinopse
Yellow Letters acompanha Derya e Aziz, um casal cuja estabilidade desmorona após ambos perderem o emprego por decisões arbitrárias do Estado. Forçados a deixar a própria casa, eles se mudam para Istambul para viver sob o teto dos pais de Aziz, levando consigo a filha de 13 anos, Ezgi. O convívio apertado e a perda de autonomia ampliam as tensões do casamento. Drama.
Crítica
O cinema já tematizou inúmeras vezes a repressão à liberdade artística sob regimes de exceção, abordando a forma como o artista luta para resistir à censura, manter seu senso de propósito e tentar projetar na sua produção um mundo para além dos limites que lhe são impostos pelas circunstâncias políticas do seu tempo. Em Yellow Letters (Gelbe Briefe), novo filme de Ilker Çatak, diretor alemão de origem turca conhecido pelo celebrado A Sala dos Professores (2023), esse fértil mote se diluiu numa repetição de situações dramáticas já vistas, aqui suprimidas de força ao servirem a uma narrativa repleta de personagens desinteressantes, que parecem existir apenas para dar corpo à tese do filme. Uma tese, diga-se de passagem, que o realizador se mostra incapaz de aprofundar para além da manutenção da visão romântica do artista heroico em corajosa batalha contra as forças opressoras da sociedade.

Derya (Özgü Namal) e Aziz (Tansu Biçer) são dois profissionais das artes dramáticas (ela, atriz reconhecida; ele, respeitado dramaturgo e professor universitário), empregados pelo Teatro Nacional da Turquia. Casados há muitos anos, levam uma vida confortável em Ancara, criando a filha adolescente, Ezgi. Quando ambos se afirmam contrários ao regime antidemocrático e expõem essa posição numa nova montagem teatral, Derya e Aziz veem seu cotidiano tranquilo virar de cabeça para baixo. Ambos têm seus contratos cancelados e ele passa a responder a um processo criminal por supostamente ter instigado um grupo de alunos a participar de um protesto contra o governo. Sem recursos, o casal precisa se refugiar na casa da mãe de Aziz, em Istambul, onde ele passa a trabalhar como taxista. A convivência entre os quatro membros da família num apartamento pouco espaçoso e sob grande estresse vai, obviamente, desembocar em toda sorte de conflitos, todos francamente previsíveis.
Muito embora não se ignore a importância de se elaborar sobre o papel da arte e do artista no contexto contemporâneo de tantos retrocessos e tentativas de censura mesmo em nações ditas democráticas, em Yellow Letters a narrativa se perde em discussões redundantes e pouco imaginativas sobre arte e liberdade, com diálogos rasos, que fariam Sartre revirar os olhos ao ver seu conceito de arte engajada encenado de maneira tão caricatural. Frases como “Não é um crime ter uma ideia e expressá-la” soam genéricas, enquanto a relação dos personagens com suas formas de expressão artística resulta pouco aprofundada. De fato, tem-se dificuldade de torcer para que o casal continue realizando uma arte que o público observa apenas em pequenos fragmentos, que parecem extraídos de uma colagem de excertos do teatro contemporâneo mais banal.
O roteiro tenta explorar as diferentes posturas dos dois protagonistas diante da ruína: Aziz quer continuar se entregando ao teatro “de guerrilha”, feito sem grandes recursos por aqueles movidos por um grande senso de dever e vocação; Derya pensa em retomar seus trabalhos de televisão e em alternativas para voltar a ter uma vida mais estável, mesmo que para isso precise regressar ao sistema que a rejeitou. Isso posto, se abre um leque de discussões sobre o imperativo moral da arte e os limites da integridade, num debate que permanece na superfície dos argumentos e, por isso mesmo, vai induzindo ao sono – também não ajuda a incômoda trilha sonora, onipresente e marcada demais, que sublinha a tensão crescente entre o casal sem um pingo de sutileza. Por fim, a escolha de ceder bruscamente ao melodrama familiar ao dar à filha adolescente uma trilha de rebeldia totalmente gratuita e desinteressante piora ainda mais o conjunto.

Em alguns momentos, o longa se liberta da sua desconfortável roupagem de filme-tese, mas essas passagens são breves (um exemplo é o trecho da audiência do processo criminal contra Aziz em que o dramaturgo descobre que foi filmado furtivamente por um estudante, que depois o denunciou). Em pontos como este, o filme consegue flertar com uma discussão mais fresca e aguda sobre o significado de autonomia artística no fraturado mundo contemporâneo, debate que ele é incapaz de adentrar com a mesma coragem muda dos seus pouco acabados personagens centrais.
Filme visto durante o 76° Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
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