Voz de Aluguel

Crítica


6

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Em Voz de Aluguel, Baptiste, um talentoso imitador, não consegue viver da sua arte. Um dia, ele é abordado por um romancista, constantemente perturbado pelas ligações incessantes de seu círculo. Precisando de silêncio para escrever, o romancista propõe a Baptiste que se torne seu “atendedor de chamadas”. Comédia/Drama.

Crítica

A França romantizada das boinas, dos cafés esfumaçados e das longas discussões estéticas parece definitivamente distante. O país mudou, atravessado por fluxos migratórios, novas dinâmicas sociais e um cenário cultural em permanente transformação. Esse debate, amplo e complexo, costuma, aliás, ser sequestrado das análises geopolíticas e antropológicas por quem pouco o entende. Voz de Aluguel, no entanto, escolhe caminho claro: parte da constatação de que a convivência entre origens distintas já não é exceção, mas motor criativo. Ao compreender a mistura como potência, o filme aposta no encontro entre gerações, experiências e visões de mundo, colocando dois intérpretes em rota de colisão sensível, dispostos a revelar muito a quem estiver aberto a escutar.

20251217 voz de aluguel papo de cinema 750 1

Na trama, Pierre Chozène, vivido pelo veterano Denis Podalydès, é escritor incapaz de se desligar do entorno imediato. Telefonemas, mensagens de texto e visitas inesperadas disputam sua atenção de forma quase ininterrupta, impondo uma rotina marcada por interrupções constantes. O impasse é direto e reconhecível: como proteger aquilo que se tornou bem escasso na vida contemporânea, o tempo necessário para pensar, criar e escrever.

A saída surge de maneira improvável quando Pierre cruza o caminho de Baptiste Mendy, um comediante dotado da habilidade singular de reproduzir vozes alheias com precisão. Interpretado por Salif Cissé, um dos nomes mais interessantes da nova geração francesa, Baptiste passa a atender as ligações do escritor, emulando sua fala e sua presença. O arranjo estabelece equilíbrio funcional: enquanto um garante estabilidade financeira, o outro finalmente conquista o silêncio indispensável para concluir seu romance.

A premissa, por si só, já convida a reflexões instigantes. O roteiro, adaptado do romance de Luc Blanvillain, carrega subtexto profundamente atual, explorando identidade, mediação e representação. Naturalmente, o artifício serve à criação de situações cômicas e momentos dramáticos, conduzidos com habilidade pelos dois protagonistas. Nem todas as passagens mantêm o mesmo vigor ao longo da duração, e algumas ideias se alongam além do necessário. Ainda assim, o eixo mais sedutor permanece intacto: o contraste entre dois franceses que compartilham o mesmo idioma, mas habitam universos culturais, afetivos e sociais radicalmente distintos.

20251217 voz de aluguel papo de cinema 750 2

Voz de Aluguel se revela, assim, oportunidade valiosa para observar a formação de um novo tecido social, marcado por fronteiras cada vez mais porosas. Entre aproximações cautelosas e choques sutis, equilibra humor e reflexão ao abordar identidades em reconstrução. Sem didatismo ou confronto direto, a diretora Fabienne Godet, que já foi do drama ao documentário desde os anos 1990, propõe, aqui, olhar acolhedor sobre mudanças que muitos ainda resistem em aceitar. O amanhã, frequentemente tratado como ameaça pelos discursos mais conservadores, surge aqui com traços humanos, possíveis e até afetuosos – menos um rompimento abrupto, mais um convite à escuta.

Filme visto durante o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
avatar

Últimos artigos deVictor Hugo Furtado (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *