Crítica

Um dos primeiros filmes a fazer uso eficiente do atual renascimento dos efeitos 3D foi Viagem ao Centro da Terra (2008), adaptação moderna do romance de Júlio Verne. Naquele filme tínhamos Brendan Fraser tentando lidar com o filho problemático e com o pai desaparecido, ao mesmo tempo em que partiam para uma aventura nas profundezas do planeta. Nessa continuação, no entanto, Fraser e todo o resto do elenco caiu fora, sendo o único remanescente o garoto-problema, novamente interpretado por Josh Hutcherson (Minhas Mães e Meu Pai, 2010). Ele é o centro da ação, mais do que o padrasto, interpretado pelo astro Dwayne Johnson (também conhecido como The Rock), do que o avô, que ganha o rosto do oscarizado Michael Caine, e da namoradinha Vanessa Hudgens (vista há pouco no sofrível A Fera). Essa opção do diretor deixa algo bastante claro, para o caso de algum desavisado ainda estar em dúvida: Viagem 2: A Ilha Misteriosa é um longa para crianças e adolescentes, e só para eles.

Ao invés de seguir os passos apresentados anteriormente, agora os protagonistas se lançam numa outra jornada, baseados nas histórias apresentadas num diferente livro de Verne, o tal A Ilha Misteriosa do subtítulo. Ou seja, o título mais apropriado seria Júlio Verne 2, pois essa é uma sequência das criações do escritor, e não dos personagens e das aventuras apresentadas no primeiro episódio. De qualquer forma, no entanto, isso não deixa de ser um detalhe técnico que só preocupa os adultos. Os menores, que é a quem o filme se dirige, certamente não se preocuparão com isso. Afinal, os efeitos especiais são convincentes e justificam o uso do 3D, a trama apresenta perigos constantes e a sensação de adrenalina é intensa. De fato, temos aqui algo muito mais próximo de um videogame do que propriamente cinema, mas quem se importa?

Hutcherson perdeu o pai no outro filme e agora mora com a mãe (Kristin Davis, de Sex and the City) e o padrasto. Ele identifica uma mensagem de rádio vinda de um destino desconhecido, e consegue convencer a nova figura paterna a levá-lo até o local apontado no mapa. Com eles, até o meio do Pacífico, irão um piloto de helicóptero picareta – mas de bom coração – interpretado pelo sempre divertido Luis Guzmán –  um ator que possui mais de 100 longas no currículo, numa incrível variedade que vai desde Boogie Nights (1997) até Debi & Lóide 2 (2003), passando por tantos outros títulos memoráveis (ou não) – e a filha desde, a jovem estrela Vanessa Hudgens, que despontou para a fama como par romântico de Zac Efron em High School Musical (2006), da Disney. Após uma incrível tempestade eles finalmente encontram a ilha secreta e, nela, o avô desaparecido (Michael Caine, visivelmente se divertindo como uma versão idosa de Indiana Jones). O grande mistério do lugar é que nele tudo é invertido – por exemplo, elefantes são do tamanho de gatos e formigas são maiores de girafas. É lá também onde se encontra a cidade perdida de Atlântida, que está acima do nível do mar. Mas não por muito tempo, pois o que fazia a ilha ser até então desconhecida é que ela passa anos submersa, pelo movimento das placas tectônicas, e os aventureiros possuem poucas horas para encontrarem um meio de escaparem dali antes que tudo vá, mais uma vez, por água abaixo.

Qualquer filme que tenha como crédito na direção um homem que até então fez apenas Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore (2010), como é o caso de Brad Peyton, não pode, de fato, ser levado muito à sério. É por isso que Viagem 2: A Ilha Misteriosa é, sim, uma bobagem descartável, mas ao menos é uma inofensiva, que irá divertir seu público-alvo, sem incomodar qualquer outro espectador que fuja desta faixa etária específica. Rápido, ágil e leve, é o tipo de opção recomendado àqueles que precisam ocupar suas tardes durante as férias enquanto os pais passeiam pelo shopping em compras ou qualquer outra necessidade. É só não esperar nada além do prometido.

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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