Crítica

Ao contrário de grande parte das franquias cinematográficas, que geralmente começam muito bem e vão decaindo uma sequência após a outra, em Velozes e Furiosos o processo parece estar se dando de forma inversa. O original Velozes e Furiosos (2001), lançado 16 anos atrás, foi ok, mas nada surpreendente – a ponto de um dos protagonistas, Vin Diesel, abandonar a continuação imediata +Velozes + Furiosos (2003), e o outro, Paul Walker, se juntar a ele fora das telas no terceiro Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio (2006). A turma só voltou a engrenar, de vez, em Velozes e Furiosos 5: Operação Rio (2011) – filmado em parte no Brasil – e chegou ao seu ápice em Velozes e Furiosos 7 (2015), o primeiro lançado após a morte de Walker – que faleceu em um acidente de trânsito na vida real. Se o mais bem-sucedido nas bilheterias até então havia sido Velozes e Furiosos 6 (2013), com US$ 788,7 milhões arrecadados no mundo todo, o sétimo episódio simplesmente dobrou esta cifra, com um montante de mais de US$ 1,5 bilhão! É diante deste cenário, portanto, que Velozes e Furiosos 8 chega às telas, com as expectativas mais altas do que nunca, e sem o apelo emocional da ausência de um dos seus principais astros para se apoiar. O mais surpreendente, no entanto, é que ao invés de se preocuparem com isso, os envolvidos apostaram de vez no “mais e melhor”, e entregam um dos capítulos mais divertidos de toda a saga.

Ainda que o maior chamariz para o público sejam seus carros fantásticos envolvidos em peripécias inacreditáveis – e essas estão de novo presentes, talvez mais alucinantes do que nunca – Velozes e Furiosos é uma série esperta o suficiente para não se sustentar apenas no charme das máquinas, mas também no carisma daqueles que estão nos volantes. É o conceito de “família”, tão propagado em seus discursos e em suas tramas, que envolve a história. Lá no começo, Dom (Diesel) e Brian (Walker) se aproximam porque o segundo é um policial infiltrado atrás do fora-da-lei especialista em fugas sob quatro rodas, mas permanecem juntos porque o jovem oficial acaba se apaixonado pela irmã do bandido. Ou seja, uma vez inimigos, passam a ser quase irmãos. Um deles pode não estar mais em cena, mas a confraria que se formou também com as presenças de Letty (Michelle Rodriguez), Tej (Ludacris), Roman (Tyrese Gibson), Hobbs (Dwayne Johnson) e até mesmo Deckard (Jason Statham) parece estar mais sólida do que nunca. E é por isso que os fãs seguirão atentos ao que lhes acontece. Afinal, desta vez o perigo não virá de fora, e, sim, de dentro do próprio grupo.

Sem maiores mistérios, será Dom que irá virar as costas aos amigos, passando a agir sob o comando da vilã cibernética Cipher (Charlize Theron, cada vez mais linda e competente, abraçando de vez os filmes de ação, após sua participação hipnotizante em Mad Max: Estrada da Fúria, 2015). Nesta situação, o Sr. Ninguém (Kurt Russell) volta ao encalço dos demais, agora acompanhado de um novato (Scott Eastwood), para reunir a turma e colocá-la atrás dos dois. As missões que assumem são hiperbólicas – impedir bombas atômicas, desfigurar ogivas nucleares, impedir ataques à submarinos militares do tempo da Guerra Fria, ou seja... salvar o mundo – mas possuem, em resumo, um único objetivo: descobrir o que levou Dom a agir desse modo e como trazê-lo de volta ao “lado bom da força”, digamos. E entre um exército de carros guiados à distância em pleno centro de Nova Iorque (a ‘caravana zumbi’, como chamam) e uma perseguição de tirar o fôlego em lagos congelados da Sibéria, resta a pergunta: quem precisa de super-heróis ou agentes secretos quando esses malucos são capazes de tudo isso junto, e ainda mais?

É interessante perceber, também, como a dinâmica entre eles se dá. Dwayne Johnson assume com tranquilidade o co-protagonismo da trama, e suas rusgas com Jason Statham são hilárias. Tyrese e Ludacris também atendem pelo lado cômico – com o primeiro exagerando um pouco – enquanto que Michelle e Diesel seguram bem as pontas como par romântico (quem diria, não?). Charlize Theron é a pior inimiga que já enfrentaram, e se vê no olho dela toda a loucura de uma mulher capaz de tudo. Scott continua distante de um dia alcançar os méritos do pai, mas parece estar no caminho do estrelato. Da mesma forma, poucos parecem se divertir mais do que Kurt Russell, um ator que literalmente se reinventou neste novo século. E se família é mesmo importante, como não abrir um sorriso de rosto inteiro diante da versão britânica formada por Statham, Luke Evans (sim, ele está vivo!) e a mãe dos dois, ninguém menos do que... Helen Mirren! Se tanta explosão, tiroteio, carros pegando fogo e mísseis teleguiados chegam a ser anestesiantes, apenas pelo elenco reunido tamanha bobagem já acaba compensando.

Chegando agora na série, o diretor F. Gary Gray cumpre o esperado sem desapontar, ao mesmo tempo em que não se preocupa em reinventar a roda. Ele já havia trabalhado, no início de sua carreira, tanto com Vin Diesel (O Vingador, 2003), como com Charlize Theron (Uma Saída de Mestre, 2003) e com Dwayne Johnson (Be Cool: O Outro Nome do Jogo, 2005). Íntimo dos seus atores principais e tranquilo na posição de quem acabou de entregar um sucesso inesperado (Straight Outta Compton: A História do N. W. A., 2015), ele dá a impressão de ter se preocupado apenas em abrir o caminho para que cada um fizesse o seu melhor – e estes, quando reunidos, são do tipo, óbvio, ninguém segura. Velozes e Furiosos 8 pode não ser a melhor ou mais memorável das aventuras de Dominic Toretto – e nem pretende ser, uma vez que tanto Velozes e Furiosos 9 (2019) quanto Velozes e Furiosos 10 (2021) já estão confirmados! – mas é uma continuação honesta e competente, que diverte na medida certa e entrega exatamente o que promete: adrenalina, reviravoltas e emoção. Tão passageira quanto uma corrida de automóveis, mas ainda assim não menos eletrizante.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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