Crítica

Relacionar-se com o próprio passado pode ser doloroso e, ao mesmo tempo, libertador. Se isso envolve um mergulho na vida íntima dos pais, a situação atinge outro patamar. A cineasta baiana Mônica Simões encarou o desafio. Vale-se de duas memórias, à primeira vista, distintas, mas que são complementares, para realizar Um Casamento. Partindo do resgate do filme do matrimônio dos pais, o professor Rui Simões e a atriz Maria Moniz, a diretora une a imagem do patriarca prestativo de sua infância/adolescência com a do marido machista que não sabia lidar com a personalidade forte da esposa.

Um Casamento começa fraco, interessado na reconstituição de algumas fotos do tal “grande dia”. A interação entre a diretora e a mãe não é restrita aos bastidores. Escutamos perguntas e até orientações, algumas num tom bem autoritário que faz pensar até que ponto aquela senhora de mais de 80 anos está realmente à vontade com a exposição de suas memórias. Quando essa dúvida surge no público, o filme toma um novo rumo. Encantador, diga-se de passagem. Isso porque, após poucos comentários sobre o estilo impositivo do marido, Maria Moniz solta o verbo. Por meio da fala mansa e do olhar expressivo descobrimos que aquela moça linda usando branco nas filmagens e nos retratos não queria casar. Uma gravidez não planejada a obrigou a seguir as regras da família tradicional do então namorado. Ela, em plenos anos 50, estava disposta a ser mãe solteira, já que o pai da criança havia dado sinais de que seria severo além da conta, não apenas com ela, mas também com a prole.

A fotografia inicial, iluminada como as manhãs baianas da casa de grandes janelas onde Maria cresceu, casou e criou os filhos, se torna mais opaca à medida que a conversa entre mãe e filha se intensifica na temática e no tom. Visivelmente incomodada com as perguntas sobre o fim do casamento, Maria responde com a naturalidade de quem sempre teve a alma libertária. Já Mônica, em seu posto de diretora, parece querer esclarecimentos dignos de contos de fada ou melodrama. O acontecimento precursor do afastamento do casal é explicado com clareza, atitude prática de uma mulher que não quer mais dividir a cama com o marido. Parece não bastar à cineasta, que demonstra até uma dose de pena do pai dentro da situação. O machismo da criação parece entranhado, passando por cima da liberdade cativa da mãe que agora é personagem central do filme.

Em determinada sequência de Um Casamento, as mulheres da família (quatro gerações) fotografam umas às outras, reforçando a ligação dos Moniz e dos Simões com as imagens. Afinal, na década de 50, fotografias não eram banais como hoje. Esse poderia ser o tema central do documentário, mas o sangue fala mais alto, e isso é compreensível. Uma mulher como Maria Moniz não é importante apenas à arte, sua maior paixão e motivo dos ciúmes do marido. Registra-la em digital, formato bem diferente das películas sensíveis que eternizaram o seu casamento, é deixar para a posteridade um exemplo de que lugar de mulher é onde ela quiser. E não é preciso véu e grinalda para se chegar lá.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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