Crítica

Mais do que uma mera cinebiografia de Hélio Jaguaribe, o documentário Tudo é Irrelevante, de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, busca mergulhar no pensamento desse filósofo e político brasileiro já com mais de 90 anos de idade. Tal pensamento articula ateísmo, reconhecimento da absoluta irrelevância do homem no universo e um, a princípio paradoxal, profundo humanismo, que levou Jaguaribe ao engajamento na política do país entre os anos de 1950 e 1990.

O intelectual (num determinado momento do filme ele chega a brincar com essa nomenclatura) atuou, ainda jovem, na formação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), órgão de formulação de pensamento político, social e econômico que exerceu considerável influência no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), marcado pelo desenvolvimentismo caro aos isebianos. Nacionalista e contrário ao golpe de 1964, Jaguaribe deixou o país logo após a tomada do poder pelos militares, iniciando uma bem-sucedida carreira acadêmica nos Estados Unidos que, logo em seguida, foi interrompida bruscamente por sua decisão de voltar ao Brasil. Nos anos 1980, militou pela redemocratização e participou, junto a outros intelectuais, da criação do PSDB, encantado que estava com a opção pela ideologia social-democrata e pelo parlamentarismo como caminhos para o país – bandeiras que posteriormente se enfraqueceram dentro do partido, com a chegada ao poder em 1995.

Tudo é Irrelevante é muito eficaz na construção de Jaguaribe como personagem de uma geração de pensadores progressistas que buscaram construir alternativas para o Brasil escapar do subdesenvolvimento e da submissão aos interesses norte-americanos. Isso se dá, sobretudo, a partir das entrevistas com outros membros dessa geração, como os ex-ministros Celso Lafer e Francisco Weffort, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e a historiadora e professora Maria da Conceição Tavares – curiosamente, todas figuras ligadas ou ao PSDB ou ao PT, partidos que governam o país desde meados dos anos 1990 e são, hoje, tragados pela profunda crise que tomou o sistema político brasileiro. Apesar de não tocar nesse tema, o filme acaba ecoando o ocaso de certa visão de Brasil, portadora de uma crença (que atualmente soa quase como utópica) na política como motor de transformação da sociedade – já Jaguaribe deixou a atuação política após participação como ministro no desastroso governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), informação lamentavelmente ausente na narrativa, que, talvez demasiadamente laudatória, não parece muito disposta a apontar equívocos ou incoerências de seu protagonista.

Outro aspecto interessante de Tudo é Irrelevante é sua construção visual enquanto documentário. Apesar de usarem as talking heads (entrevistados enquadrados na altura dos ombros se dirigindo a um interlocutor oculto) corriqueiras no gênero, Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan apostam também em recorrentes falas em off, em planos mais aproximados dos personagens vez ou outra e, principalmente, em grafismos que objetivam dialogar com aspectos do pensamento de Hélio Jaguaribe que estão sendo apresentados. Essa criatividade visual, existente mesmo dentro das limitações de um documentário que não pretende escapar totalmente do tradicional, aliada à sucessão de conversas agradáveis com os entrevistados, incluindo, claro, o próprio Jaguaribe, sujeito divertidíssimo, contribuem para que o grande mérito do filme, no fim das contas, seja o alcance de uma leveza próxima a do biografado. Com um protagonista que defende a irrelevância da existência humana, Tudo é Irrelevante termina deixando no espectador um inesperado e irresistível desejo pela vida.

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é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.
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