Trial of Hein

Crítica


9

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Trial of Hein acompanha o retorno de um rapaz à vila isolada onde nasceu, localizada em uma remota ilha do Mar do Norte, após 14 anos vivendo no continente. Para sua surpresa, a comunidade fechada já não o reconhece como um dos seus. Nem mesmo o amigo de infância Friedemann demonstra confiança. Diante das dúvidas crescentes, os moradores instauram um tribunal local para decidir se ele é realmente quem afirma ser. Drama.

Crítica

A ideia da ilha como um universo fechado em si, em permanente contraste com o continente, um mundo isolado que pode se revelar tanto o inferno quanto o paraíso – frequentemente, uma junção dos dois –, já foi muito explorada pelas artes narrativas, principalmente pela literatura. Ainda assim, o filme alemão Trial of Hein (no original, Der Heimatlose), longa-metragem de estreia do diretor e roteirista Kai Stänicke, consegue explorar essa noção com originalidade. A narrativa segue o retorno de Hein (Paul Boche) à ilha na qual cresceu, um vilarejo inóspito que ele escolheu abandonar quatorze anos antes para se formar professor na cidade e ao qual jamais regressou.

20260213 trial of hein papo de cinema

O retorno de Hein, no entanto, traz consequências inesperadas. Tendo deixado o povoado ainda muito jovem, os habitantes não parecem reconhecê-lo, incluindo a mãe, já demenciada, e a irmã, que era apenas uma criança quando ele partiu. Neste espaço de extrema vigilância e permanente rejeição de tudo que é estrangeiro, a presença desse sujeito, que diz ser um conterrâneo, demostra conhecimentos amplos sobre o ambiente, mas se porta de maneira dissonante dos demais, faz com que os ilhéus desconfiem de suas intenções e decidam estabelecer uma espécie de tribunal para decidir, por meio de provas, se o forasteiro é de fato quem diz ser e, assim, determinar se autorizam sua permanência.

A partir desta instigante premissa, o filme vai descortinando pouco a pouco as razões da repentina fuga de Hein e de seu regresso através do embate do protagonista com um passado fora de alcance e irrecuperável – afinal, ao ter se convertido num “homem da cidade”, culto e com uma perspectiva mais ampla sobre as possibilidades da vida, Hein surge como uma ameaça permanente à frágil harmonia local, uma harmonia fundada na escolha pela manutenção da tradição a qualquer custo. Neste contexto, o filme explora com grande profundidade a experiência queer, a forma como aqueles que exibem uma orientação sexual ou uma identidade de gênero dissidentes precisam lutar para se conformar ao status quo usando, em espaços não inclusivos, a máscara da “normalidade”, que, uma vez desprendida de seus rostos, não pode ser facilmente retomada.

20260213 trial of hein filme papo de cinema

O roteiro aborda a reconstrução da memória da infância pelo adulto e a sensação de desajuste de Hein por meio da justaposição das suas lembranças com as recordações dos moradores, que reforçam suas certezas ao se apoiarem contra a ruptura provocada pela simples presença do novo. Dessa maneira, se problematiza o conceito de verdade, muitas vezes abraçado por esse tipo de narrativa. A cenografia, que exibe apenas as fachadas das casas e alguns elementos de seus interiores, sem nenhum compromisso com o naturalismo, também segue nesta direção. Recusando-se a construir paredes entre os indivíduos que ali habitam, reforça-se a sensação de unidade e a tensão da possibilidade da existência semioculta de um olhar panóptico, que a tudo observa.

Também o mar tem um caráter ubíquo. É um oceano ameaçador, pouco convidativo, mas ainda assim a única rota possível para uma nova escapada. O som desse mar revolto se faz presente durante todo o desenvolvimento, pontuando a escalada de tensão que marca o filme. Os figurinos e a direção de arte não demarcam claramente o período histórico em que a trama se passaria, assinalando que a ilha é um lugar que se esquiva a qualquer tentativa de modernização, um ambiente orgulhosamente parado no tempo.

20260213 trial of hein berlim papo de cinema

Se o tempo parou para os indivíduos do vilarejo, no entanto, ele certamente correu para Hein, que vai aos poucos percebendo que não pode resgatar seu passado porque não é mais capaz de acessar sua versão juvenil. Recusando-se a levar os embates entre Hein, seu passado e os escombros que ele encontra quando decide escavá-lo às raias da violência mais explícita, Stänicke amplia a ressonância com a jornada interna do protagonista. E, de forma inspirada, constrói uma narrativa capaz de refletir a vivência de descompasso que acompanha aqueles que, não conseguindo se conformar com as “normas sociais” repressoras e preconceituosas sob as quais cresceram, precisaram buscar, mareados, nova terra firme.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
avatar

Últimos artigos deMaria Caú (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *