A Meia-Irmã Feia

Crítica


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Sinopse

Em A Meia-Irmã Feia, ao saber que o príncipe irá escolher uma moça para ser sua esposa, Elvira se enche de esperança. Porém, para isso, passa a lutar - recorrendo a métodos extremos - para se encaixar nos padrões de beleza de um reino onde o encanto é necessidade crucial. Para piorar, ela tem uma rival e tanto: a filha do falecido marido de sua mãe, ninguém menos do que Cinderela. Horror.

Crítica

A reinvenção – ou reinterpretação, ou mesmo releitura – de contos de fadas clássicos não se trata, necessariamente, de uma novidade. Mas é sempre um viés interessante, que desperta curiosidade e pode contar com a boa vontade, já de partida, de segmentos determinados da audiência. Como se deu com A Meia-Irmã Feia, uma abordagem não original, mas ainda assim ousada e criativa, sobre a história de Cinderela. Deixa-se de lado animais fofinhos e castelos encantados, e o que entra em cena é um corpo morto apodrecendo em um quarto abandonado, uma mocinha que não tem medo de fazer sexo – de forma bastante gráfica, aliás – e uma leading lady disposta a tudo para alcançar seu objetivo. Mesmo que para tanto precise se humilhar, permitir agressões e até mesmo violências contra si, sua personalidade e, principalmente, quanto ao próprio corpo. Eis, enfim, um misto de narrativa tétrica que alterna entre o body horror e o terrir, indo do choque visual ao riso constrangido pela aparente falta de limites em sua realização. Para aqueles que imaginavam saber de tudo a respeito dessa fábula que vem atravessando gerações, a diretora e roteirista Emilie Blichfeldt está disposta a mostrar que há mais a ser revelado.

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Para começo de conversa, é positivo a falta de ansiedade da realizadora em conectar a plateia com o texto já conhecido. Para os desavisados, levará um bom tempo, talvez até mesmo um terço do filme, até que as conexões entre um e outro se tornem evidentes. É mais ou menos o caminho seguido por Chloe Zhao no oscarizável Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) – e os resultados são igualmente positivos. A diferença é que se um perseguia o drama e a emoção, aqui são instintos mais básicos que ditam os acontecimentos. Tanto é que essa pode uma das explicações tanto para os aplausos que a produção tem recebido entre audiências especializadas – não por acaso, conquistou uma única indicação ao Oscar em uma categoria técnica (Melhor Maquiagem & Penteados), o que aponta para o aval dado por quem entende do assunto – como pelo choque que tem provocado entre os que pouca ideia fazem sobre o que irão encontrar por aqui. E sem reclamações por não terem sido avisados antes: o próprio cartaz original do filme coloca em evidência um dos desfechos da trama, podendo até mesmo ser considerado um imenso spoiler.

A história começa com a noiva chegando para o casamento com um homem mais velho e, supostamente, também mais abastado financeiramente. Ele não tarda em morrer, assim como não demora para que se revele a verdade sobre sua precária condição material. As quatro mulheres restantes – a filha dele, a agora madrasta e as duas filhas desta – precisam urgentemente de um plano para sobreviverem. Numa época que restavam poucas opções para a parcela feminina da população, além do casamento e da prostituição, a decisão mais evidente é combinar um pouco dos dois caminhos. Enquanto Agnes (Thea Sofie Loch Ness de Inferno em La Palma, 2024), a que se vê órfã de pai, se mostra apaixonada pelo rapaz que cuida dos estábulos e pouca importância parece dar a sua beleza natural, o mesmo não se passa com sua meia-irmã mais velha. Elvira (Lea Myren, em performance hipnotizante, sem se submeter à caricatura) não foi provida de uma estética que a favorecesse, mas isso não parece impedi-la de sonhar. E o que estiver a seu alcance para conquistar o coração do príncipe – e a aprovação materna – ela irá fazer.

É excitante acompanhar a jornada da protagonista pelas mãos de Blichfeldt. Realizadora jovem, com menos de quarenta anos, ela estreia com A Meia-Irmã Feia no formato longo, após uma série de curtas-metragens que lhe valeram atenção e reconhecimento internacional. Ao contrário de produções caça-níqueis que servem apenas para desvirtuar os originais em suas propostas de terror passageiro com personagens populares que caíram em domínio público (como Screamboat: Terror a Bordo, 2025, eleito o pior filme do ano pela grade crítica do Papo de Cinema), a cineasta norueguesa teve as primeiras exibições do seu filme nos prestigiados festivais de Sundance (EUA) e Berlim (Alemanha). E o material que agrega é suficiente para justificar tal exposição. Pois há tanto cuidado com a forma, como um conto gótico orgulhoso de suas origens, mas também atento ao conteúdo, dotando seus personagens de motivações próprias, reações justificadas e responsáveis pelas consequências de seus atos. A Cinderela da vez está longe de ser uma mocinha perfeita, assim como Elvira não se mostra uma vilã rasa e desprovida de objetivos pessoais.

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De mutilações físicas a constrangimentos que já nas descrições são capazes de provocar reações imediatas entre os espectadores, A Meia-Irmã Feia deixa claro não estar aqui a passeio. Eis uma obra da qual é quase impossível se mostrar indiferente, seja pelas ligações que estabelece por meio de referências e alusões, como também pelos novos pontos de vista que oferece a partir de estruturas de imediato reconhecimento. O que se tem é algo que respeita a perspicácia do público, demonstrando igual carinho aos personagens que reúne a cada passagem, reviravolta ou frustração. Sim, pois se toda história de ninar deve ter um final feliz, o que se vê aqui é um pesadelo capaz de deixar qualquer um longe de uma boa noite de sono por um bom tempo. E o melhor: ainda agradecer por isso.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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CríticoNota
Robledo Milani
8
Daniel Oliveira
3
MÉDIA
5.5

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