The Loneliest Man in Town
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Tizza Covi, Rainer Frimmel
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The Loneliest Man in Town
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2026
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Áustria
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em The Loneliest Man in Town, Al Cook vive cercado por lembranças em um apartamento abarrotado de livros, fitas VHS e discos de vinil - vestígios de uma vida que já não existe. Viúvo e cada vez mais deslocado em sua própria cidade, ele encontra no blues o último elo com o passado. Quando uma imobiliária decide demolir sua casa, seu refúgio é arrancado. Drama.
Crítica
Há algum tempo, as obras que se propõem a borrar os antes supostamente estreitos limites entre documentário e ficção parecem trazer as proposições mais ousadas ao cinema contemporâneo. Assim é The Loneliest Man in Town, em que o austríaco Al Cook interpreta uma espécie de projeção de si mesmo, um musicista idoso que leva uma vida solitária em Viena e é confrontado pela iminente demolição do prédio em que vive. Obrigado a se mudar, decide vender todos os seus pertences, o que inclui uma enorme quantidade de memorabilia de música, em especial itens relacionados à carreira de Elvis, e diversos instrumentos. A intenção do músico é deixar de vez a Áustria e se estabelecer nos Estados Unidos, precisamente no Delta do Mississippi, região que jamais visitou, mas com a qual tem uma ligação emocional, fundada em sua paixão pelo blues.
Nota-se que o duo de diretores, Tizza Covi e Rainer Frimmel (Covi também assina o roteiro), trabalhou na construção de uma cadência narrativa que se revelasse quase uma transposição para as telas do ritmo do blues, criando um filme bastante atmosférico e muitíssimo melancólico. A trilha sonora, recheada de músicas sobre solidão (incluindo a que dá título ao filme), unida aos planos de Cook, vestido como um dândi do blues, cumprindo pequenos rituais em seu apartamento ou atravessando a cidade e reencontrando personagens de seu passado, vai levando o espectador a uma espécie de transe meditativo de caráter existencial. Essa agradável hipnose dá a uma trama que poderia caminhar para o melodrama rasgado uma qualidade tenra inesperada.

Também nessa direção seguem as interações de Cook com diversas figuras pitorescas, situações dramáticas que ameaçam explodir em conflitos profundos apenas para escolher a delicadeza do acordo inesperado. Assim se desenha um filme de encontros, no qual Cook consegue pisar em terreno comum com o comprador dos outros apartamentos de seu prédio, um homem com ares de gângster, ou reestabelecer laços com uma ex-namorada (que lhe diz, num dos momentos mais engraçados da narrativa, que usa muito bem o humor como forma de pontuação: “Como você pode dar álbuns do Elvis para uma fã de Beatles?”).
Antes de tudo, Cook redescobre a si mesmo em suas deambulações pela cidade de Viena, onde assiste inerte à demolição de diversas construções. Esses planos ponto de vista ganham um caráter simbólico importante e é interessante que o músico esteja abandonando aquela que é a capital por excelência da música clássica, onde Mozart e Beethoven compuseram algumas de suas maiores sinfonias, para ir em direção a outro polo musical, este da música periférica negra. Se a concretização do desejo leva à sua inevitável dissolução, a narrativa resiste bravamente a um desfecho “redondo” que lhe seria inapropriado, escolhendo manter o desejo sempre um tanto fora de alcance, o que tem por efeito emancipar o protagonista da representação, repetida pelo cinema contemporâneo, do idoso como aquele que precisa contemplar, necessariamente, o fim. Em The Loneliest Man in Town, ao contrário, Al Cook desencava seu baú de memórias para entender, ao contrário, que está apenas começando.
Filme visto durante o 76o Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
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